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PARA A DIVULGAÇÃO DA LITERATURA LUSÓFONA,
PÁGINA DE ADRIANO DE ALMEIDA GOMINHO
Notas do autor:
Natural de S. Nicolau Cabo Verde
Jubilado da Aviação Civil
Estudante de IV ano de Direito, em Lisboa,
65 anos de idade
Lisboa, Setembro de 2006
[última revisão]
e-books:
1)- FIGURAS TIPICAS DE S. NICOLAU,
2)- CAMINHO LONGE PARA S. TOMÉ -
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FIGURA 1
VICTOR
Enquanto o Sol se escondia na Centinha, foram passando pela minha retina algumas figuras típicas da ilha de São Nicolau, que me impressionaram durante a meninência, já não pertencentes ao mundo dos vivos, com excepção do Victor - um pescador dos Carvoeiros. Quem sai da Estância, seguindo a estrada da Chãzinha, sempre com o vale das Maiamas à direita e o mar da Prainha ao fundo, vai dar à povoação dos Carvoeiros, alcantilada no meio do verde das plantações de bananeiras e cana sacarina. Os telhados são encarnados e as paredes caiadas de um branco imaculado, pintalgando a paisagem, tendo por fundo o azul do mar. Foi assim que vi a Povoação dos Carvoeiros. Durante a minha meninice, ela era também bela, mas com poucas casas de telhas encarnadas - as de alguns americanos - que voltaram à terra "para nela deixarem os ossos" - como dizia tio Cleto! O cinzento das coberturas das casas de palha confundia-se, agora, com o escuro da paisagem.
Passemos adiante:
Foi nos Carvoeiros que nasceu o Victor - um criado da casa dos meus pais - que, nos anos quarenta, logo após a guerra e fome duradoiras, veio procurar trabalho na Estância, era o autor ainda menino. Homem rude, vivera sempre no interior da ilha, trabalhando a terra ou pescando nos mares do Silvão, de bote ou à linha. O Victor era alto, espadaúdo, tez escura, rude mas sincero e gostava de contar estórias de bruxas e de feiticeiras aos meninos da minha idade. Mamãe, que precisava de um trabalhador para a Ribeira da Caixa, contratou-o, de imediato. Recordo-me dele, pois ainda vivia, quando lá estive, em 1994. Perguntava-me, com a maior das naturalidades: "O menino come com essa coisa que tem bicos e parece um arpão para a pesca do polvo"? Tratava-se de um garfo, coisa que ele até então desconhecia. À noitinha, ou quando se procedia à debulha do milho, das favonas e dos feijões das hortas, abeirava-se de mim para contar os encantadores contos do Lobo e do Chibinho, dos Capotonas, dos Gongons e das feiticeiras da Ribeira Prata, Ribeira Funda. Belas estórias, Victor!
Em data recente(1994) fui encontrá-lo (velhinho, claro está), a medir e vender água em latas, no Chafariz Municipal da Estância, porque a Bica da Passagem já não existia. O Victor, aos poucos, foi tomando contacto com um meio diferente e, anos depois, constituira família, continuando a trabalhar nas nossas propriedades. Lembro-me da época das podas aos tamarindeiros, cuja lenha mamãe vendia às padarias, a bom preço. O Victor dirigia a faina, escolhendo os ramos menos necessários, serrando os troncos e acarretando-os para o local de secagem. Certa vez, mamãe notara que algo de anormal se passava. Ainda não vendera a lenha e os montões de feixes estavam cada vez mais magros...
- Victor! O que se passa com a lenha?! - perguntara-lhe mamãe, meio furiosa!
- Nada, Nhá Mélia...
Mamãe mandou vir da Estância alguns quilos de cal virgem que misturou com água e, com um pincel, numerou os feixes de um a quarenta.O Víctor não sabia ler e só contava até dez, pelos dedos. Assim que o galo cantou na amendoeira brava do quintal, mamãe levantou-se e foi direitinho contar os feixes de lenha e deu pela falta de um, com o número treze. Fez as suas investigações e, dias depois, foi encontrar o feixe de lenha no quintal da casa da companheira do Víctor, na Estância, ainda por desmanchar... Muito envergonhado e apanhado na ratoeira, o Victor confessou-se autor do desaparecimento da lenha, prometendo não mais tornar a fazê-lo... No dia seguinte, com um lápis nas mãos e um pedaço de papel retirado de uma saca de cimento, abeirou-se de mim:
- Didi! (assim me chamava), a partir de hoje, quero aprender a ler, escrever e contar, pelo menos até treze...
FIGURA 2
PAI PEDRO
Do terraço da casa do papai, olhava o Alto de São João e veio-me à memória a grata figura de Pai Pedro, um parente meu que lá morava:
Pápedro - era assim conhecido por todos. Sempre o tratei por tio. Ia à sua casa no São João, para brincar com um garoto que ele criava - meu companheiro na Escola da Rochinha. Gostava de visitá-lo, pois, além das muitas coisas bonitas vindas da América que tinha, coisas novas para mim, possuia uma bela e valiosa colecção de relógios de bolso, com as tampas em prata trabalhada, exibindo figuras de barcos e de sereias, entre muitas outras. Os mostradores eram de esmalte branco e os números romanos impressos a negro, o mesmo acontecendo aos finos ponteiros das horas, minutos e segundos. Cada relógio de bolso tinha a sua corrente de prata, já um pouco escurecida pelo passar do tempo. Enquanto Pápedro descansava, estirado na sua cadeira de balanço, vinda da América, fumando um cachimbo de louça, que enchia com o tabaco das suas lavras, picado, delicadamente, numa tábua lisa com uma afiada faca, feita de mola de gramofone, eu e o Rui iamos à gaveta da sua velha escrivaninha de mogno, tomada pelo caruncho dos anos, local onde guardava as preciosas relíquias e, pé-ante-pé, fugíamos para o quintal com uma dessas relíquias no bolso - para as nossas brincadeiras de meninos. A curiosidade levava-nos a desmanchar, às escondidas, o complicado mecanismo de rodas dentadas e de reluzentes pinos. No fim, com pena nossa, não conseguíamos repôr as minúsculas peças nos seus eixos e, sobre a mesa da cozinha, ficavam espalhadas, para nosso desespero, algumas mágicas rodas amarelas e dentadas, as que não cabiam na preciosa caixa de prata trabalhada.
O relógio, para desencanto nosso, já não fazia o habitual tique-taque. Estava morto. A roda de balanço já não girava como louca, para a esquerda e para a direita, embora a corda estivesse toda enrolada. Regressávamos à casa e recolocávamos o objecto inerte no local habitual, como se fosse um defunto a descer à cova, e aí ficava a repousar, a um canto da bafienta gaveta da escrivaninha de mogno. À saída, passávamos pela cadeira de balanço e Pápedro ainda se conservava na mesma posição, de boca aberta e cachimbo apagado pendente do queixo. Pápedro era muito avarento - talvez a criatura mais avara que conheci em toda a minha vida! Tratava-se de um proprietário abastado, dono de várias hortas na Ribeira de João, local onde os bananais e as plantações de cana sacarina cresciam com viço e com a água aos pés, correndo junto às vedações de canas de carriço, protegendo as suas vastas e bem cuidadas herdades de regadio. Vejo Pápedro, homem já entrado na idade, de estatura mediana, trajando roupas vindas da América e calçando botas pretas de cano alto com atacadores até ao cimo da canela.
Quanto à sua histórica avareza, conta-se que, certa vez, deu seis bananas verdes e mais um naco de toucinho para a criadinha lá da casa pôr na cachupa do jantar. À hora da refeição ele verificou que faltava uma banana e, de imediato, chamou pela Zepa, sua esposa:
- Zepa!..Zepa, há qualquer coisa errada nesta cachupa!
A mulher, sentada ao lado, nem falava antevendo a cena. Pápedro alinhou as bananas na travessa, afastou a cachupa para os lados com uma colher de alumínio e, enquanto tamborilava com os seus grossos dedos no tampo da mesa, foi contando as bananas, em voz alta: uma, duas, três, quatro e cinco...e cinco...!
- Zepa, aqui há gato! Dei para pôr na cachupa seis bananas e só vejo cinco nesta travessa?! Alguém comeu uma banana...
A mulher olhou para os dois (criadinha e esposo) sem querer despertar a ira de um vulcão adormecido. O relógio da Sé batia as oito badaladas da noite. Era a hora do jantar. Lá para os lados do Monte Fora, os supleta-e-fogo saíam dos escuros buracos das rochas. A Julinha era gente de confiança da casa e não tinha necessidade de roubar o que fosse, mormente uma banana da travessa que vinha para a mesa, pois sabia do controlo do seu amo.
- Zepa, já me roubaram outra vez. Há dias foi a garoupa que chegou à mesa meio encolhida com a fervura, sem uma posta, que até sei ser a do meio. Agora é a vez da banana! Nossenhor me valha! Gente sem propósitos...
- Não, padrinho, não roubei nem peixe nem banana - falou a Julinha - indignada!
Pápedro, com raiva, espumando pelos cantos da boca, muito contrariado e de mãos segurando o peito onde um agastado coração arfava, descompassadamente, começou a comer. O relógio da Sé batia a badalada da meia-hora quando a refeição terminou. A banana em falta, envolta num naco de toucinho de couro rebelde, repousava, para seu espanto, no fundo da travessa. Dizem que Pápedro ficou envergonhado com a sua sovinice crónica, coisa falada em todas as casas da Estância. Noutra ocasião, fumava o seu cachimbo americano, sentado na cadeira de balanço, quando um tição de lume, que mandara vir do fogão para acender o tabaco para não gastar um pau de fósforo, lhe caiu pelo cano de uma das botas que trazia. O lume começou a queimar-lhe a perna e, mesmo com uma faca ao lado, não quis cortar e danificar o belo atacador. Desenfiou-o, calmamente, ilhó-a-ilhó, com o lume chamuscando a sua carne. Por fim, conseguiu livrar-se do tição sem danificar o atacador, de bom nastro. Só que a ferida de má carnadura levara muitos meses a cicatrizar, não obstante os cuidados do zeloso enfermeiro, que escarafunchava-a em vez de a curar, fazendo render os seus honorários... Ainda hoje, quando vejo um relógio de bolso numa montra, vem à minha mente a figura do Pápedro, um homem que viveu uma vida inteira amealhando fortuna para legar a um desconhecido. Quantos avarentos como ele, por esse mundo fora...!
FIGURA 3
UM REGEDOR EXEMPLAR
Olhei mais além, lá para os lados dos Penedos (possíveis restos de um metereorito, de há milhões de anos) via-se a casa onde morava Nhô Djei - um regedor muito querido na Estância. Na minha meninice, ele já era um ancião maduro e uma figura respeitada na terra - uma verdadeira autoridade - no bom sentido do termo - inspirando em todos uma ideia sólida de autoridade, misturada com o medo às leis, coisa que qualquer um tem. Quase sempre, Nhô Djei usava roupas pretas e trazia uns óculos de aros metálicos sobre o nariz, de hastes já esverdeadas do suor que corria por detrás das suas orelhas um pouco afastadas da cabeça esguia. Olhava de riba da armação, quando queria ver ao longe, só utilizando as lentes, tapadas de poeira e dedadas, quando necessitava de pôr a sua firma num Atestado de pobreza ou noutro papel. Era um burocrata assumido, servindo, a contente de todos, a freguesia de Nossa Senhora do Rosário. Tinha nomeação vitalícia! A sua secretária - uma mesa de cozinha raspada e pintada de verde - uma cadeira de espaldar preto, de fundo de palhinha já rota e bem disfarçada com uma almofada de um branco já encardido pelo uso (objectos vindos da América), um tinteiro de duas bocas, uma para a tinta encarnada e outra para tinta preta, um mata-borrão salpicado com o negativo das suas assinaturas, algumas canetas de pau, rimas de papéis amarelados e, finalmente, uma velha máquina de escrever da marca Remington, de teclado negro disposto em quatro filas, tudo fazendo parte do recheio da Regedoria. A máquina de escrever, por ser americana, não tinha o "~" e o "ç" e, mesmo esse "c", por defeito de fabrico, saltava para o chão, cada vez que era pressionada a tecla. Dava dó e vontade de rir só de ver nhô Djei, de rabo para o ar, à cata do maldito "c", mal encaixado do berço, como dizia, constantemente - quase pedindo desculpas aos presentes. A máquina de escrever (um verdadeiro luxo nos anos quarenta e tais) era destinada à passagem de atestados especiais "para fora da ilha", ou registo de alguma queixa, que, pela sua gravidade, iria parar às mãos do Juíz do Julgado Municipal de São Nicolau. Apoderava-se de mim uma natural curiosidade quando lá ia, muitas vezes só para ver funcionar aquela maravilha da tecnologia. Um rolo de borracha negra por onde deslizava o papel, uma fita que com apenas um toque mágico numa alanvanca escrevia a preto ou a encarnado e o som metálico da campaínha, escondida algures, tilintando quando o parágrafo chegava ao fim... Maravilhas da tecnologia americana - pensava eu! Ainda hoje, gosto de ver e apreciar as antigas máquinas de escrever, talvez recordando-me de nhô Djei, embora fiquem à distância deste computador, onde, agora. escrevo, pensando na singular figura do já falecido Regedor. Mas, adiante...
Quando lá ia tratar de algum assunto, ou simplesmente ver o exímio burocrata despachando as pessoas que faziam filas na escadaria de pedra lavrada do quintal, de acesso à varanda de madeira da sua casa-Regedoria, onde as atendia do parapeito de uma janela, atrás da qual ficava uma velha secretária, encontrava uma outra figura carismática - a do oficial de diligências - nhô Zé de António Teófilo. Era ele quem fazia as notificações ou intimações do Julgado ou da Fazenda, transportando os mandatos num canudo de lata, já preta pelo uso, levado a tiracolo com um cordel, também amarelado pelo tempo. Ainda o vejo, alto, magro, de barba branca, bigode farto e recurvado, cara encovada e jeito de quem estava sempre atarefado. Era temido por todos, pois no ventre daquele canudo escuro transportava as indiscutíveis ordens emanadas da Lei para a Grei - como dizia! Ficara com a alcunha de Ti-Lei, pela profissão e experiências, e até recitava de cor as leis e posturas municipais. Mas voltando-me ainda ao Nhô Djei, o homem em apreço:
O seu quintal estava sempre apinhado de gente que queria apresentar queixas, solicitar atestados de pobreza para os mais diversos fins ou, simplesmente, pedir-lhe um conselho numa questão de marido e mulher. Sentado frente à secretária, meio carcomida pelos carunchos e olhando o povoado lá do alto dos Penedos, vendo o fumo escapulir-se das chaminés das casas da Estância, na maioria cobertas de palha de cana ou soca, molhava a reluzente pena de aço da sua caneta de pau num tinteiro de vidro sujo pelas moscas, coçava a cabeça com falha de cabelos e ensaiava a sua assinatura no ar, antes de a arriar ao papel - qual avião, percorrendo a pista, numa aterragem de precisão. Tinha uma caneta de tinta permanente MG, da América, mas só para os momentos solenes. Quando não queria estragar o seu mata-borrões, de difícil recarga, escavava um bocado de caliça debaixo da janela e com o pó, trazido na ponta dos dedos, salpicava o papel, esperando que o excedente da aquosa tinta preta do tinteiro de vidro amarelado e sujo fosse absorvido. Com os atestados ainda ao vento para uma secagem completa, lá iam as pessoas escadaria abaixo, satisfeitas com a eficiência de nhô Djei - um excelente Regedor, que apenas tinha por paga a satisfação do dever cumprido.
E hoje?...Haverá por este mundo fora algum Regedor como nhô Djei? O leitor conhece algum? Eu não, por mais que o procure...
FIGURA 4
UM CARTEIRO DE FAMA
Do terraço da casa, via-se o edifício da Câmara, onde também funcionavam os Correios. Não pude deixar de recordar a grata figura de nhô Xim - um bom carteiro e um amigo do papai. Via- o todas as vezes que ia aos CTT levantar as cartas do papai, separadas num cacifo a ele reservado. Como era menino, punha-me em bicos dos pés para ver a austera figura de nhô Xim - o carteiro - e, nas faltas, era mesmo chefe da Estação. Lá andava ele muito atarefado, por entre as sacas de serapilheira acastanhada - as célebres malas - com os dizeres de CTT em letras garrafais. Abria e fechava os sacos e atendia o único telefone da ilha - um que ligava o porto da Preguiça à Estância. Sim, o único! Era um aparelho de manivela, daqueles que só os mais velhos ainda têm na memória. Nhô Xim já era um homem entrado na idade quando eu ainda menino. Vestia-se, quase sempre, de caqui amarelo. De estatura baixa, atarracado mesmo, face cheia e avermelhada e procurava ser amável quando não andava atarefado, dando à manivela ao telefone, com um rum-rum que se ouvia pelo barrote acima, fazendo tocar uma teimosa campaínha no longínquo porto da Preguiça, apenas a sete quilómetros.
- Estás a ouvir-me bem! - gritava ele! - sou nhô Xim!
Cá de fora, eu ouvia os estalidos produzidos pela electricidade estática correndo nos arames de cobre, atravessando montes e vales, suspensos dos postes de madeira, levando e trazendo mensagens...
- O Ildut já entrou no porto? - perguntava! Mandem-me a mala, e depressa! Vocês têm aí algumas sacas de batatas no armazém? É que um mau cheiro chega até cá...
Esses pequenos retalhos de conversas ficaram gravados na minha mente de menino e para sempre. Nhô Xim pousava cuidadosamente o aparelho no gancho, olhava as indispensáveis pilhas mergulhados num recipiente de vidro junto à coluna onde o telefone estava aparafusado e falava-me, com um sorriso na face:
- Então, menino, tu vens levantar as cartas do teu papá? Como está ele!
Com passos vagarosos, fazendo ranger as tábuas do chão, dirigia-se ao cacifo, o primeiro do lado direito da fila de cima, e de lá retirava as cartas do papai. As pessoas aguardavam, cá fora, em bicha, até que ele tocasse ou mandasse tocar a corneta de aviso de mala aberta. Já com as cartas nas mãos, eu saía a correr dos Correios, passando pela janela de tabuínhas, virada para o Poente, onde, momentos antes, juntamente com outros garotos da minha idade, fazíamos a vida negra ao nhô Xim, quando carimbava as cartas, com a melopeia de Xim-está-doido-está -doido, ao ritmo cadenciado das pancadas do pesado carimbo de ferro sobre a almofada de borracha já pisada, e desfazendo-se aos bocados. Nhô Xim, suado, irritado e sem saber quem estava do lado de fora, vinha espreitar pela janela de tabuínhas, sem nada ver, gritando:
- Vão mas é pr’o Diabo...!
Quão bondoso era nhô Xim - o carteiro da Estância - um homem singular e querido de todos!
Um descanso à sua alma e que me perdoe das tropelias de uma criança...
FIGURA 5
FIDJINHA JATA
Pela calçada da Ladeira vira subir uma das pessoas que mais medo me incutia, quando menino e moço. Um exemplo de longevidade, vivendo em condições extremamente precárias. Tratava-se da Fidjinha - vulgarmente conhecida como a Jata (a maluca). Quando pequeno, eu brincava pelas ruas da Estância, como todas as crianças da minha idade e gostava de espreitar através das grades da Cadeia, situada no centro da Vila. Da janela, os presos olhavam para mim e, de mãos estendidas, pediam-me cigarros. Lá dentro, reinava uma sinistra escuridão e um cheiro a mofo chegava até mim, vindo das grossas grades de ferro que retiravam a liberdade àquela gente de face amarelada. Além dos presos do delito comum, havia os malucos - os mais perigosos - e, por isso, detidos por precaução. A Fidjinha nunca esteve detida pois não era pessoa calma, criatura inofensiva, pelo menos durante o dia. Andava mal vestida pelas ruas, rota, suja e com as pernas em chagas, que tapava com folhas de chaluteiras. Apoiava-se, quase sempre, num longo cajado e não falava o crioulo, mas sim um refinado português. Diziam que não era a voz dela, mas sim a de um espírito nela entranhado. Contava-se que, outrora, a Fidjinha fora uma senhora de boas famílias de esmerada educação e, por desgostos amorosos enlouquecera-se, havia um ror de anos. Raras vezes andava de dia e, só quando o sol se punha por detrás do morro da Centinha, é que ela vadiava pelas ruas, acompanhada do seu inseparável e comprido cajado. Noutras ocasiões, normalmente quando a Lua estava cheia, trocava a sua habitual calma por uma agressividade sem limites, e, por qualquer "dá cá aquela palha", corria atrás dos garotos de cajado em riste, para os agredir.
Certa vez, fui comprar cigarros, a mando do papai, e tive o azar de me encontrar com a Fidjinha, numa altura em que a Lua estava redonda. Vi a pobre e doente mulher encostada à entrada de uma das vielas medievais, a única que ia dar à minha casa e impossível de se transpôr sem se ficar ao alcance do seu inseparável cajado já polido pelo uso, coisa que nunca largava. Olhei para ela. Nesse dia, trazia os cabelos esbranquiçados, muito emaranhados e com algumas folhas secas e palhas à mistura, certamente caídas da árvore debaixo da qual passara a noite, como era seu hábito. Os seus olhos brilhantes numa face amarelada, as suas roupas em farrapos, as unhas compridas e sujas, os seus braços magros e compridos, o seu corpo esguio com as pernas salpicadas de feridas metiam-me pavor e nojo. Pelo caminho, fui assobiando para afugentar o medo que me invadia. Engano meu! Quando passei por ela, senti as suas mãos agarrarem-me pelos ombros e o cajado zumbindo nos meus ouvidos. Corri, quase sem fôlego, até chegar à casa, com a Fidjinha Jata (maluca) no meu encalço.
Anos depois, mais precisamente, em 1994, volvidas mais de quatro décadas, para espanto meu, ela ainda vivia, velhinha e apoiada ao seu inseparável cajado de chaluteira. Posteriormente, vim a saber que já não pertence ao mundo dos vivos, mas guardo na alma o medo daquela mulher, que nunca a ouvira falar o crioulo, mas sim um refinado português, de fazer inveja a qualquer um, coisa dos espíritos - dizia a voz do povo...Ainda hoje penso como foi possível a um ser, abandonado nas ruas, dormindo ao relento e sem qualquer assistência médica poder viver tantos anos?!. A Lua Cheia tinha uma grande influência naquela criatura, que, durante o resto do mês era uma pessoa tímida e recolhida no seu ego, a um canto de um muro qualquer!
FIGURA 6
O Jack das Maiamas
Conheci-o quando ele conversava com papai, sentados nos muros das hortas de bananeiras nas Maiamas, ouvindo a água cantar de pleno em pleno, correndo pelas levadas, enchendo os canteiros onde as palhas secas e os insectos mortos ficavam a boiar. Alegremente, eu corria pelos campos e olhava com admiração os coqueiros, cujas folhagem gemiam nas alturas, com medo de levar com algum coco na cabeça. Sim, eles caíam das copas, quando o vento da Prainha soprava mais forte e sem aviso prévio, enterrando-se no lodo fofo dos canteiros. Abrigado pelas largas folhas das bananeiras, filtrando raios do sol e deixando passar uma claridade esverdeada e vendo os pardais dos coqueiros debicando as papaias maduras nos pontos mais inacessíveis das papaeiras que desafiavam o céu, via eu, ao longe, a figura de papai conversando com o Jack das Maiamas - um trabalhador do campo, um homem cheio de sabedoria popular - um verdadeiro filósofo, à sua maneira... O Jack, homem de meia-idade, de estatura baixa, rosto de cor clara mas com a marca dos anos, as mãos calejadas pela dura vida da enxada e, acima de tudo, um bom conversador era um celeiro de sabedoria popular. Morava a caminho da Prainha, numa casa de paredes de pedra e barro, coberta de palha, renovada de dois em dois anos. Era dono de algumas terras, mas trabalhava outras hortas como rendeiro, incluindo as Maiamas - umas propriedades da minha família. Da sua casa avistava-se um mar sempre revolto, fazendo rolar os seixos de basalto polido, com um ruído característico que se ouvia à distância. O Jack também se dedicava à pesca à linha, quando o mar estava de feição. Ao lado da sua casa havia uma velha purgueira, o local preferido para ele fumar o canhoto e contar as histórias várias passadas durante a segunda guerra. Eu gostava de o ouvir, mormente quando contava os episódios dos submarinos e dos barcos ao largo daquela costa, não faltando os torpedos, as explosões e as chamas iluminando o horizonte. O Jack punha entusiamo em tudo o que relatava, enquanto ia enchendo o seu canhoto com a erva da terra, picada sobre uma tábua. O fumo saía do canhoto e, enquanto as galinhas trepavam ruidosamente para a velha purgueira para aí passarem a noite, ia conversando com papai. Depois, o silêncio descia ao vale, ouvindo-se ao longe a água correndo pela ribeira por entre os pedregulhos. Do outro lado do vale, viam-se as ruínas da casa da Mãe Antónia - uma bisavó minha - ainda com as suas paredes brancas pintadas sobre um fundo escuro dos bananais e matas de tarafes. Quanto ao pendor filósofico do Jack, não vou falar dele, pois daria para um tratado. Ele já faleceu, mas, no meu imaginário de menino ficaram as suas mágicas histórias da guerra, relembradas cada vez que um avião passava roncando sobre a vila - estórias que ele me contava, sentados nos muros das hortas, ouvindo o vento assobiando por entre as folhas dos coqueiros e tarafes ou o gemido das bananeiras parindo os seus cachos.
Sim, as bananeiras gemem ao parir os cachos, à tardinha...
FIGURA 7
NHO PADJAL
Olhando o vale da Ribeira Brava e contemplando o esqueleto da velha amendoeira brava da antiga horta de nhô Tomás - sim, as árvores morrem de pé! - relembrei-me das inúmeras vezes que brinquei debaixo da sua frondosa e acolhedora copa, ao lado da Coima. A algumas décadas de distância, ainda via a figura de Nhô Pajal, um zelador do Município - o velhote - vulgarmente conhecido por nhô Pajal, ribeira acima, por entre os calhaus das últimas enxurradas e vestido de cotim militar. Vejo a sua alta e magra figura, coluna vertebral curvada pelo peso dos anos, caminhando para a Coima, visível da varanda da casa de papai. Nhô Pajal era o encarregado da dita Coima (um recinto circundado por altos muros - uma prisão para os animais apanhados na via pública ou entregues às autoridades) por prejuízos causados nas hortas. A Coima situava-se mesmo ao lado de uma Lavandaria pública - um recinto com muitos tanques de cimento, onde o povo ia lavar as suas roupas, quando as ribeiras não levavam água. Desse local, avistava-se o interior do recinto, onde os burros, as cabras, os cavalos e os bois coabitavam em fraterna harmonia, disputando a exiguidade de um espaço mil vezes recalcado pelas patas dos animais. Sentava-me num dos bancos de cimento, à sombra de um frondoso tamarindeiro, deixando cair as pétalas amarelas sobre a minha cabeça, quando os paradais partiam em debandada para a amendoeira brava da horta de nhô Tomás. Gratas recordações de nhô Tomás, um homem bom e amigo de todos, já não pertencente, infelizmente, ao mundo dos vivos. Regava as suas bananeiras com as sobras da lavandaria, uma água espumosa mas que adubava as suas viçosas plantas, ostentando belos cachos e altas papaeiras carregadas de frutos maduros. Postado no muro sobranceiro à Coima, eu ficava a contemplar, com uma certa revolta íntima, diga-se em abono da verdade, esse tal presídio para os animais, vulgarmente chamado de Coima. Ao meu lado, debruçado sobre o mesmo muro, um ancião recém-chegado dos Campos do Norte retirara da cabeça o seu boné de xadrez, enxugou a testa com um lenço amarelado pelo uso, em cujas pontas trazia algum dinheiro embrulhado. Com as mãos em concha (as lavadeiras conversavam em voz alta, contando as estórias das patroas da Estância), gritava: - Nhô Pajal? Nhô Pajal...
O zeloso funcionário do Município, lá em baixo, no recinto da Coima, tentava desembaraçar um bode preto cuja corda se en-rolara aos chifres. O desinfeliz animal berrava mais alto que o ancião, postado ao meu lado.
- Nhô Pajal! - insistia o homem! Venho levantar o meu burrinho...!
Nhô Pajal olhou para o alto onde estavamos, tapando os olhos meio escandeados com a alvura dos lençóis, que as lavadeiras estendiam pelos muros fora, depois de corados com anil e excrementos das galinhas, pois, na época, ainda não havia os milagrosos detergentes que tornam tudo mais branco que o branco...
- Sou eu! - Antône de Titinha, lá do Norte, e venho buscar o meu burrinho, aquele que deu entrada na Coima ontem, e que tanta falta me faz lá em casa para o trabalho nas hortas, como nhô
Pajal bem pode calcular. O fiscal, lá de baixo, olhou o seu interlocutor e falou-lhe:
- Dê uma volta e entre pelo portão!
Mostrou-lhe o caminho com os dedos. O portão era de rija madeira e dobradiças de ferro forjado, sempre fechado com uma grossa corrente que até dava para amarrar um vapor. Nhô Antône enrolou a corda que trazia nas mãos e apressou-se, pois o zelador tinha pressa em fechar o recinto, tendo já nas mãos uma pesada chave de ferro. Na lavandaria do povo, algumas raparigas batiam as roupas nas muitas barrelas de cimento, enquanto a água jorrava das torneiras de latão polido pelas mãos, correndo as sobras para as levadas que iam ter à horta de nhô Tomás, com uma água misturada à branca espuma do sabão. Do alto do muro, as flores do velho tamarindeiro pingavam sobre mim.
Pude seguir o diálogo:
- Nhô Pajal, o meu burrinho não teve culpa! Foi só um instantinho e a coisa aconteceu. O animal roeu a corda e entrou na horta de nhá Cacai e ele só teve tempo de comer umas ramadas de aboboreira velha e cinco covas de milho, ainda por trabalhar. O velho zelador, encostado ao muro dianteiro da Coima, tentando dar descanso à sua coluna vergada pelo peso dos anos, friagem do tempo e desgostos da vida, coçou a cabeça com alguns cabelos pretos, e disse-lhe:
- Sabe Nhô Antône, Lei-é-Lei! Estou aqui para cumprir e fazer cumprir todas as posturas municipais. Você paga a coima e já pode levar de volta o seu burrinho para o Norte...
- Mas, nhô Pajal não podia dar um jeitinho à coisa?! Se for preciso, até trago um dinheirinho comigo, enrolado neste lenço, está a ver! Vim preparado (fez menção de retirar o lenço do bolso das calças com as moedas sonantes).
- Não e não! Lei-é-Lei! Você não me ouviu agorinha mesmo dizer isso! Paga, passo-lhe o papel e leva o burro...
A um canto, um bezerro, nascido no cativeiro, castigava os úberes secos da mãe, à cata de algum leite, que a escanzelada vaca ainda lhe podia dar. Na amendoeira brava da horta de nhô Tomás os pardais chilreavam, querendo fazer coro com as cantadeiras da coladeira nhô Antône Scadêrôde, que estava sendo acompanhada pelo bater das roupas nas barrelas de cimento estalado. No interior da Coima, nhô Antône - o homem do Norte - não teve outro remédio que pagar a multa para poder levar de volta o seu burrinho de estimação, que tanta falta lhe fazia na lavoura:"o meu companheiro fiel na palha, na lenha e quando vou à Fonte" Já no Largo da Passagem, encontrei o dito ancião levando o jumento pela corda, a caminho do Bebedouro Municipal. Nenhuma clemência foi concedida ao pobre homem, que perdeu um dia de trabalho no campo, para vir à Estância retirar o seu pobre animal da Coima, convicto de que conseguiria quebrar o gelo entranhado na alma daquele zelador fiel.
Ainda pensando no fiel zelador do município, olhei para um grupo de moças do povo que se dirigiam ribeira acima, com trouxas de roupas por lavar. Veio-me à memória uma lavadeira da mamãe, de nome Filipa Paula: Na Ladeira, um pouco acima da minha casa, morava ela - a principal lavadeira de roupas das boas casas da Estância. Vivia num rés-de-chão de uma constru-ção antiga, de muitos séculos, habitada na parte superior por uma outra família, vizinha da casa dos meus avós paternos. Era baixa, atarracada, muito ágil apesar da sua idade, e fumava canhoto, sentada à soleira da porta da sua casa de chão de terra batida, paredes de pedras à mostra, mas muito limpa e arrumada. A cama de finca-pé via-se coberta com uma colcha de retalhos de várias fazendas coloridas e os poucos móveis enfeitados com toalhas rendadas. A única porta, quase sempre semi-cerrada e sustida no local com ajuda de uma pedra polida pelo uso, guinchava, tristemente, nas desengonçadas dobradiças seculares, quando soprava uma aragem fria e cortante, vinda de uma vereda, a que chamavam de Canalinho. Quando menino, ia à sua casa levar-lhe algum recado da mamãe. Encontrava-a, quase sempre, sentada na soleira da velha porta, fumando no seu inseparável canhoto, cuja erva largava um cheiro acre que invadia o quintal e sentia-se a distância. Ao lado, no quintal, as galinhas debicavam pedaços de hortaliças que ela ia cortando, com paciência, sem pressas, com ajuda de uma faca bem afiada. Nhá Filipa, pelo menos, duas vezes por semana, batia à porta da casa da mamãe para levantar a trouxa com as roupas para lavar na Ribeira, ao mesmo tempo que dava dois dedos de conversa, antes de seguir para as Àguas Caídas, local das lavagens. Levava sabão da terra em bolas e o imprescindível anil, embrulhado na ponta de um trapo. Muitas vezes, ia eu ao local entregar-lhe alguma coisa deixada no chão do nosso quintal. Aproximava-me da verdejante Ribeira de João, por entre hortas de bananeiras, plantações de cana sacarina e frondosas mangueiras carregadas de aromáticos frutos maduros, cujas copas não me deixavam ver o céu. Ouvia a água a cantar de pedra em pedra, seguindo ribeira abaixo. Do dique, avistavam-se as lavadeiras de saias atadas à cintura com cordas de bananeiras e, entre elas, nhá Filipa lavando as roupas, à saída da bica, local onde a água era mais límpida. Do alto, eu contemplava aquela boa gente, de vestes garridas, movimentando-se por entre os brancos lençóis espalha-dos pelas pedras das margens. Algumas banhavam-se semi-nuas nas pequenas represas feitas de pedras e palhas, indiferentes aos olhares fortuitos dos caminhantes. Era fácil, para mim, identificar as toalhas da casa da mamãe.
Nhô Padjal era a bandeador (homem que tocava o tambor e lia os editais da Edilidade). Era uso nessa época, 1950, as posturas municipais e avisos importantes serem divulgados, como na idade média, por meios usuais, isto é, tocando tambor para juntar as gentes e em seguida lia-se o conteúdo do papel. Quando o som do tambor ouvia-se nos basaltos e empenas do Largo da Igreja, todos corriam à espera de Nhô Padjal para se inteirarem das novidades da Estância...
FIGURA 9
NHA ZABEL
Falando-vos de vidas difíceis, vejo a austera figura de nhá Zabel - uma mulher que alugava alimárias para transporte de cargas. Sempre a conheci vestida de tecido preto, já coçado pelo tempo, debruçada sobre um muro de pedras soltas do seu quintal, no S. João, onde morava. Quando menino, ao dirigir-me à Ribeira da Caixa - uma propriedade da minha família - passava pela sua casa. Ela era alta, forte e com uma cara de poucos amigos. Nunca a vi sorrir e raras vezes falava. Vivia do aluguer das suas mulas - os únicos meios de transporte de pessoas e mercadorias entre a Vila e o interior da ilha, nos anos quarenta e tais... Nunca cheguei a saber dos motivos para tão persistente luto de um preto refinadíssimo, cor que ela transportava sobre os ombros curvados, anos a fio, e enquanto durou. Talvez a reminiscência de uma viuvez precoce que tivesse levado, para sempre, o sorriso daquele rosto perturbado e perturbador. Até diziam que era feiticeira! Raras vezes a ouvira falar, mesmo com os vizinhos. Do alto do muro da sua casa, cujo topo estava protegido por fragmentos de vidro de garrafas de varias cores para evitar a entrada de suspeitos, pedaços esses que o sol fazia faíscar como diamantes a determinadas horas do dia, nhá Zabel olhava o mar, lá ao fundo, do alto onde morava. Igualmente contemplava o casario da Estância, sempre de canhoto descaído nos lábios, deixando escapar o fumo aos rolinhos, à espera que alguém lhe batesse ao portão, para alugar alguma das suas impacientes mulas, retidas no curral e esfregando os compridos pescoços nas traves da barraca, procurando afugentar as impertinentes nuvens de moscas dos cavalos, próprias da épocas das águas. Quando eu passava junto ao muro do seu casebre, sentia aquele cheiro característico a erva queimada, vindo do seu canhoto. Com um misto de respeito e de medo, cumprimentava nhá Zabel, que, lá do alto, respondia-me:
- Bom dia, menino! Mantenhas à sua mamãe.
Sim, ela conhecia a minha família a quem alugava as montadas quando delas necessitava. Cheguei a viajar do Tarrafal para a Estância numa das suas mulas - a preta - a mais mansa do curral, animal que ela reservava para as pessoas mais chegadas. Ainda conservo nas narinas o cheiro a couro dos arreios e do seu selim, sempre bem untados com sebo de carneiro. Também oiço o ranger da sela nas albardas almofadadas que protegiam o lombo dessa mansa mula preta. Contava-se que, certa vez, um dos comerciantes abastados da praça, necessitando de uma sela para se deslocar com urgência ao porto da Preguiça, mandou um criado seu à casa de nhá Zabel, com o pedido de um selim, por empréstimo ou alugado.
Procurarei reconstituir o diálogo:
- Bom dia, Nhá Zabel!
Nhá Zabel, debruçada sobre o muro do quintal, com aquele ar de aborrecimento sem fim, vestida de preto como era seu hábito, deve ter sacudido a cinza do canhoto sobre as pedras do muro, olhado de alto a baixo o mensageiro, dizendo-lhe:
- Bom dia, rapaz! O que queres, rapaz, assim tão de madrugadinha ainda!
- Venho trazer-lhe um recado do meu patrão...
- Diga lá...
- Nhô C manda pedir a sela de Nhá Zabel...
A mulher, certamente atirara o xaile preto para cima dos ombros, e, do alto do muro, olhou o rapaz, deitando ao mesmo tempo um rabo de olho para as suas impacientes alimárias, à espera dos feixes de palha das manhãs, antes de partirem para os fretes.
- Então nhô C mandou pedir a minha sela!
- Sim, senhora! Foi o recado que ele mandou.
Entretanto, as mulas já estavam na rua, com os cascos rangendo nas pedras das calçadas de São João. O relógio da Sé batera as seis primeiras badaladas de um dia que começava muito cedo.
- Está bem, rapaz! Tu não tens culpa! És apenas um moço-de-recados... O criado, visivelmente assustado com a visão daquela sinistra e cativante figura vestida de negro dos pés à cabeça, procurou desviar a atenção para os pardais que faziam os ninhos nos beirais de um palheiro.
- Vais lá baixo e dizes ao teu padrinho que nhá Zabel só tem mulas para alugar e que não usa sela. Pode ser que um dia venha a fazê-lo, mas ainda não...!
O rapaz olhava para um ninho, marcando-o para depois ir lá retirar os pardalitos, quando nascessem...
- Nhá Zabel é mula (desaforada), mas ainda não usa sela! Sela, sim, mas de nhás mulas (das minhas mulas), seu garoto-de-uma-figa e não te esqueças dar o recado direito ao nhô C...
O mensageiro partira Ladeira abaixo com uma mensagem que, pela certa, nem chegara a entender...
FIGURA 10
NHO ROQUE
Muitas vezes fui chamar o barbeiro nhô Roque, para ir à minha casa cortar os cabelos a papai. Ele morava na Chãzinha - local donde se avista um majestoso vale e o mar da Prainha, sempre revolto, como pano de fundo. Para lá se chegar, seguia eu pelo caminho de cima, verdadeira vereda, encontrando-me com as mulheres que iam fazer os despejos na Montureira Municipal, vulgarmente conhecida pela designação de Colaça. O cheiro nauseabundo dos currais dos porcos, misturado com o dos lixos ardendo lentamente a descoberto, empestava o ar. As canhotas (abutres), empoleiradas muros e rochedos vizinhos, exibiam os pescoços compridos e pelados e as penas de um branco sujo, olhavam para mim com indiferença, habituadas à proximidade do caminho. Por fim, chegava-se à casa do barbeiro nhô Roque. Figura alta, magra, tez escura, gestos delicados, cabelos e sobrancelhas brancos. Era assim o barbeiro do papai. Ele e os filhos não tinham mãos a medir para darem vazão às barbas e cabelos dos muitos amigos que, sentados nos muros, principalmente aos sábados e domingos, aguardavam a vez de serem atendidos.
- Bom dia! - cumprimentava-me, com amizade!
Uma tesoura, manejada com destreza, parava de crepitar em se-co ou nos cabelos do freguês, que, sentado num mocho, à sombra de uma papaeira, olhava o Morro do Lombinho. Lá longe, o mar revolto e as pedras rolando numa praia quase sem areia.
- Bom dia, menino - respondia-me, com um certo atraso...
- Papai gostava que nhô Roque fosse lá à casa cortar-lhe o cabelo, quando tiver vagar, claro está!
O barbeiro parava, acendia um cigarrinho de palha de milho, para depois me responder:
- Sim! Diga ao papai que vou lá hoje, depois da sesta, pela fresquinha da tarde.
Por momentos, ficava eu especado no seu quintal, observando tudo, sem saber porquê! Talvez, para um dia poder reproduzir a cena, gravada na minha memória. Um freguês já estava rapado e um outro preparava-se para tomar o seu lugar no mocho, ainda em equilíbrio instável devido ao chão irregular, calcetado com lascas de pedras, cujos intervalos viam-se tomados pelas madeixas de cabelos de vários tipos e tonalidades, encurralados pelo vento num dos cantos do muro. Nhô Roque, com uma tira de couro preso nos dedos do pé, afiava uma navalha-de-barba americana - da marca "Self" - que, juntamente com a tesoura e duas máquinas de cortar cabelo, ainda nas caixas de origem, constítuiam as ferramentas do seu trabalho - o meu ganha-pão - como afirmava, orgulhosamente. Uma tigela, um pincel já desprovido da maioria dos pêlos e cabo estalado, uma toalha amarelada pelo uso, tudo isso fazia parte do seu estojo de emergência. Eu olhava o interior da casa, cuja porta se mantinha sempre aberta com ajuda de uma pedra. Lá dentro, a mulher costurava vestidos de noiva numa velha máquina de pedal. As galinhas procuravam um local para os ovos do dia, debaixo de uma cama coberta com uma colcha de retalhos coloridos. O chão de terra batida, vulgar nas casas das gentes mais pobres, via-se impecavelmente limpo. Nas paredes, alguns calendários de anos já passados (quarenta e oito e outros), como se o tempo tivesse ficado fossilizado no meio dos retratos familiares e de eventos de interesse. A costureira atendia as candidata a noivas lá dentro, indiferente aos olhares curiosos dos circunstantes. Uma a uma provavam as peças íntimas, apenas protegidas por uma cortina de tecido transparente, suspensa do tecto de um improvisado varão de cana de carriço.
No exterior, sobre os muros de pedras soltas, viam-se os alfobres de tabaco e couves, plantas que nhô Roque levaria para a sua hortinha na Ribeirinha, quando a época das águas chegasse. Os pardais debicavam as papaias lá no alto das papaeiras fêmeas, pois as papaeiras macho só deitavam flores, cobrindo as pedras do quintal com um manto branco e perfumado. Na data marcada, o barbeiro batia à porta da casa, conforme ficara combinado. Papai usava as seus utensílios de barba, embora o barbeiro trouxesse a mala bojuda com todos os seus apetrechos. Conversavam sobre os mais diversos assuntos da vida local, das chuvas que não vinham ao falecimento dos amigos comuns. No fim, papai gratificava-o e bem. Foram sempre bons amigos. Dois homens e duas figuras que me cativaram. Descansem em paz - os dois - ele e nhô Roque...
FIGURA 11
QUIAS BARÓMETRO
Conheci alguém que, quando ia cortar o cabelo, usava de todos os subterfúgios para se esquivar a qualquer pagamento ao barbeiro. Tratava-se do Quias - um barómetro das chuvas. É com saudades que recordo-me dele. Alto, magro, barbas sempre por fazer, usando roupas de boa qualidade que os amigos lhe davam e que, aos poucos, iam ficando rotas e descaídas naquele corpanzil desengonçado e encimado por uma cabeça pequena no tamanho, mas grande no conteúdo. O Quias era amigo da minha família e estava sempre disponível para ir levar algum recado, mesmo que para fora da vila, contando, é claro, com uma pequena recompensa em dinheiro para a groguinha ou em géneros para ajuda da casa. Vejo-o subindo a Ladeira, com um telegrama nas mãos para entregar na vizinhança. Batia ao portão com o papel dobrado no bolso, cobrava o recibo bem como a dádiva e retirava-se de imediato quando pressentia ser o mensageiro de alguma má notícia. Ouviam-se choros e gritos. O povo juntava-se e o Quias já ia longe do barulho...
- Adeus nhô Bento qui bái p’á terra de sôdade...Eram as guisas habituais...
Se fosse a notícia da morte de algum americano, uma pensão choruda viria a caminho, passados poucos meses e, a isso, ficava atento. O Quias descia a Ladeira apoiado nas paredes. O hábito da groguinha, tomada de manhã à noite em todos os botequins da Estância com os amigos ou mesmo desconhecidos, era o seu maior inimigo. Frequentemente, batia à porta da casa da mamãe, sempre com a mesma frase na boca:
- Nhá Mélia, hoje não me dá um troquinho para o rapaz molhar a goela?
Nhá Mélia (assim era conhecida a mamãe) nem sempre ia nas cantigas do Quias, mas, algumas vezes, lá abria os cordões à bolsa. Assim que sentia as moedas na palma da mão, partia na direitura do primeiro botequim aberto. Recordo-me do Quias, com saudades. Certa vez, após desembarcar no Tarrafal, eu e ele tomamos o caminho da Ribeira da Caixa. A dada altura, a mula, alugada à nhá Zabel, começou a tropeçar-se nas pedras do carreiro, ameaçando cair a qualquer momento. O Quias transportou-me "às cavalitas" até chegarmos à zona mais segura da Ladeira do Cabeçalinho. Ele contava-me longas histórias de feiticeiras da Ribeira Prata, terra da sua naturalidade, que "voavam" de noite, espalhando fachos de luz e montadas em vassouras. Miudo que era, acreditava nos contos, e que ficaram a fazer parte do meu imaginário infantil. O Quias conseguia prever a vinda das chuvas, facto que fez dele um homem muito procurado pelos agricultores.
- Nhô Quias, quando é que chove! Posso fazer as semen-teiras a seco?
Normalmente acertava.
- Estes ossos velhos são o meu barómetro! - dizia - no intervalo de dois cacos (copos de grogue).
Figura singular a desse barómetro, que conheci durante a minha meninice...
FIGURA 12 - UMA CARTA
A ZÉ DA LUZ DA LADEIRA
um amigo doente:
Outra figura típica do meu tempo da escola primária e da meninice, foi a do Zé da Luz - um grande inventor:
Vi-te, Zé, quando estive em São Nicolau, em 1994. Fotografei-te, a teu pedido, encostado a um dos muros de São João, ao lado de um portão amarelo. A tua pose era a mesma que tinhas, quando, nos anos cinquenta, logo após a feitura da tua quarta classe, com distinção, e por não teres posses, por seres pobre, não frequentaste o Liceu, em São Vicente, como eu. Nessa altura, tiraste uma carinha, (fotografia) para o teu contrato de trabalho para as roças de São Tomé. O tempo deixou marcas no teu corpo e a tua mocidade foi-se. A tua odisseia e a de outros colegas da escola primária, teus companheiros nas malditas roças de São Tomé, levou-me a escrever, a pedido de um de vós, por ser mais letrado - só por isso - o Romance TERRA LONGE...
Recordo-me das nossas tropelias de crianças nos tamarindeiros da Mina ou nos espinheiros do quintal da casa do meu avô, vizinha à tua - a tal árvore que, por amor a todos nós, as criancinhas de então - despira-se dos seus espinhos, quase por milagre, para podermos brincar à vontade, lá do alto a que chamávamos de cesto-da-gávea, lembras-te! Víamos a Estância, do Seminário à torre da Sé. Sim, Zé, brincámos aos marinheiros, talvez com vontade de partir para longe, como sonhara Nhô Chic’Ana, "nem que fosse num esquife de piteira..."
E o que aconteceu?
Tu foste parar às malditas roças de São Tomé - aquela terra longe - que roeu o teu corpo e marcou a tua alma, para sempre...
- E tu, mais sorte que eu tiveste? Pensas e com toda a razão...
Em 1994, volvida uma vida, fui encontrar-te encostado a uma parede, de pernas fracas, andar trôpego e o rosto tapado de barbas brancas. Já não vais na ponte de comando do teu barco alegórico, feito de paus de piteira, sacas de serapilheira e folhas de papel das sacas de cimento, aquando dos festejos do Carnaval, no grupo "Os Ladeiristas" que dirigias. Vejo-te, ainda no Grupo, tocando o cavaquinho e ensaiando as marchas, ou fazendo as lanternas e balões de papel de seda para as Divinas e Festas de Nossa Senhora do Rosário. Sinto o cheiro a ramos frescos dos tarafes e lacacões - espécies hoje já extintas - com que enfeitavas os paus de carrapata, fincados no chão, depois de engalanados, no Largo da Igreja. As velas eram acesas no interior das lanternas e balões, logo que Sol desaparecia no Monte da Centinha. Luzes trémulas encantando os nossos olhos de crianças sem horizontes, fechadas numa porção de terra, rodeada de água por todos os lados - coisa que o nosso Livro de Geografia chamava de Ilha. De vez em quando, uma lanterna ou balão pegava fogo e, com um baque surdo, tombava sobre as negras pedras das calçadas. Corríamos para apanhar os pedaços dos nossos sonhos: o arame e a vela meio ardida, entranhada nas frestas das pedras, tomadas pela grama verde da época das chuvas.
É assim a vida, Zé...! A vida...
Um sonho, um balão, que, quando menos se espera, se incendeia e cai...Fica um abraço do teu amigo - daquele que saltitava contigo sobre os montes de areia preta, aquando da construção da Escola Central, em 1946, onde papai, o nosso professor, leccionou durante tantos anos, ensinando as primeiras letras a nós e a muitas gerações de crianças, hoje homens.
Em 1994, com mágoa, fui encontrar a nossa Escola Central transformada na Biblioteca João Lopes, continuando, por ingratidão política, esquecido pelas gentes responsáveis de S. Nicolau, o nome do grande professor e figura de destaque no meio, que foi Luís Almeida Gominho, meu papai e nosso mestre.
A ele e à mamãe, que me deram a vida, dedico-lhes, de alma e coração, este livro, [CAMINHO LONGE PARA S. TOMÉ - II PARTE] escrito em Dezembro de 1995, no virar do I Centenário dos seus nascimentos (1895-1995).
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Falei-vos das ALGUMAS FIGURAS TÍPICAS DE S. NICOLAU, com relatos de uma vivência passada, para memória dos vindouros. Tentei repescar algumas figuras - as que mais marcaram o meu imaginário infantil - infelizmente todas já desaparecidas do convívio dos vivos.
Lisboa, 15 de Maio de 2005
Autor: Adriano Gominho
adriano.gominho@sapo.pt
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[e Book]
ADRIANO DE ALMEIDA GOMINHO
CABO VERDE
(648k)
CAMINHO
LONGE
DE S. TOMÉ
[romance]
LISBOA, AGOSTO DE 2005
“Cabo Verde não é Europa,
nem é África. É Cabo Verde.
(Uma reacção química onde os reagentes não aparecem no final, mas sim, o resultado o povo cabo-verdiano)”
(*) Palavras do saudoso professor e amigo,
Doutor Baltasar Lopes,
proferidas numa entrevista a uma Rádio, em Lisboa, em 19 de Maio de l987.
DEDICATÓRIA:
À memória dos meus pais,pela passagem do I Centenário dos nascimentos
(1895 -1995)
À minha mulher e companheiraMaria Teresa Gominho
A todos os colegas da escola primária
que foram parar às roças de
São Tomé,
a José da Luz, recentemente falecido.
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Fome é ter uma camisa de lã
no Verão,
as mesmas botas quentes do Inverno,
deitar-se apenas com uma chávena de café à noite,
ver o filho que estuda à luz da vela,
por fotocópias pagas pelos colegas...”
(*) in “Público”
pg. 3, em 4.7.1994
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NOTA PREAMBULAR
Durante a minha meninice, assisti, com mágoa,
à partida e à chegada de contratados da ilha de
São Nicolau, em Cabo Verde, gentes que, para
não se deixarem vencer pela fome, não tiveram
outra hipótese que não fosse ir sofrer a vida, nas
inóspitas e malditas roças de São Tomé. Assim, se
o engenho e a arte me ajudarem, é meu intento
guiar o leitor amigo ao interior de uma dessas
roças (uma qualquer) e, possivelmente, levá-lo ao
cerne das almas de uma pobre família a de Nhô
Djonzinho, um bom rabequista nascido e criado
nas áridas e amareladas terras do Norte-a-Baixo,
.
Escrito em Lisboa, Agosto de 1997
Revisto pelo autor em Abril de 2005
ADRIANO GOMINHO
Bibliografia consultada
*LOPES (Baltasar) Romance CHIQUINHO, 2ª edição, PRELO - Lisboa 1961)
*MARKY (Sum) Romance AS MULATINHAS - RECORD EDITORA
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ESTÂNCIA Vila da Ribeira Brava
ILHA DE SÃO NICOLAU
DÉCADA 1950/1960
CAPÍTULO 1
Foi num daqueles dias em que, na vila da Ribeira Brava, vulgarmente chamada de Estância, uma leitosa e persistente névoa descia pela encosta do Monte Fora e, teimosamente, ficara a pairar sobre as esguias e hirtas hastes das carrapatas da Ladeira da Igreja, onde já mal se enxergavam os plenos de pedras soltas, laboriosamente feitos pelos melhores pedreiros da ilha, a troco de um salário que servia, apenas, para mitigar a fome dos muitos anos de uma persistente estiagem. O Pico do Lombinho qual sentinela de pedra, postada entre o céu cinzento e a ressequida terra amarelada vigiava a adormecida Estância, ainda tomada pelo fumo branco da feitura do café da manhã, brotando mansamente das casas. Na Ladeira de São João um dos Bairros da Estância alguns burros e mulas, retidos nos currais de pedra, expeliam vapores pelas narinas erguidas ao ar, após uma noite fria de um Novembro qualquer. O zurrar de uns contagiava os outros e os sons estridentes, silvando mesmo, ouviam-se em desafio, indo os ecos morrer lá para as bandas da Coima, após bailarem de rochedo em rochedo. No Terreiro o largo principal da Estância, o secular relógio da Sé, que, segundo algumas versões dos mais antigos, tivera, em tempos idos, um vidro redondo, devia bater as primeiras sete badaladas da manhã. Também era voz corrente, que o hipotético vidro fora partido por coices de uma mula demoníaca, vinda dos lados da Prainha, numa noite escura como breu, passando pelas vielas da Estância de Baixo, arrastando uma pesada corrente de ferro pelo chão da negra calçada de basalto, retirando chispas de fogo das pedras, indo parar, espumando lume pela boca, no Largo do Terreiro, para, logo depois, partir aos coices esse tal vidro redondo do relógio. Lendas...lendas, mas, adiante...Esse relógio de mostrador branco, ponteiros pretos e números romanos, já comidos pelo tempo e mal desenhados sobre um mostrador sem cor como vos ia contando, para não perder o fio à meada devia bater as sete primeiras badaladas, nessa manhã sombria, fria e triste. Estava eu à varanda da minha casa. Mentalmente, fui contando as secas pancadas do badalo de ferro no bronze secular e esverdeado do sino, bem alojado no alto da torre e protegido dos pássaros por uma rede de aço, já apodrecida pelo tempo. Seis...sete...oito...nove...quinze, vinte e mais badaladas... Algo de errado se passava nas escuras entranhas, prenhes de rodas dentadas e de complicadas engrenagens, molas, cabos, roldanas e pesos do secular relógio da Sé.
- Está desmaquenado! dizia a Maria de Miguel Teia uma vizinha da minha casa - que, na altura, desenformava um binde de cuscuz de milho amarelo de Angola, para vender aos fregueses, hábito de todas as manhãs na Estância.
O Toi Maninha, que descia Ladeira abaixo com o seu burro coberto de moscas e preso a uma corda de coco, a caminho do bebedouro da Passagem, foi acrescentando:
Está mas é desenfreado!
Na verdade, também eu reconhecia que esse relógio estava desafinado, ou aliás, tinha tomado o freio nos dentes, como soe dizer-se. No Alto do Pasmatório, alguém procurava o Mano Tau, a única criatura de Nossenhor que Nhô Padre Capuchinho deixava subir os degraus de ferro da íngreme escadaria de caracol para proceder ao seu conserto.
Nhô Mano? gritava alguém, com as mãos em concha!
Nhô Mano? Viram esse homem? perguntava o apressado sacristão a todos os transeuntes...
Entretanto, o jumento do Toi Maninha, já muito impaciente, tentava rebocar seu dono, puxando-o pela corda de coco, em direcção à Passagem, onde ficava o bebedouro, cujo ruído da água, caindo da bica de ferro para o tanque, já se ouvia perfeitamente.
Sabem que esse relógio faz muita serventia a toda a Estância acrescentara Toi rebocado pela Ladeira abaixo pelo jumento, morto de sede e apoquentado com as moscas dos cavalos, zumbindo, incessantemente, à volta das suas orelhas caídas.
***
Quem era esse tal Mano Tau? Estará curioso o leitor amigo!
Figura muito singular, a desse homem que conheci durante a minha meninência, quando me deslocava à sua velha carpintaria, situada num sobrado abandonado, no Alto do Pasmatório (local onde existe uma Igreja protestante), para lhe dar algum recado do papai, ou, simplesmente, para admirar os trabalhos que ele fazia com a madeira, nomeadamente, violas, violões, cavaquinhos, rabecas e outros instrumentos musicais.
Da última vez que o visitei, foi para saber se já colara as per-nas da cadeira de balanço de papai coisa da sua estimação e que, dias-há, estava na sua oficina aguardando uma folga do artista, a chegada do grude de São Vicente ou boa disposição.
O Mano era um homem de mil ofícios: carpinteiro, relojoeiro, mecânico e muito mais. Na sua atravancada oficina e residência, ele corria de um lado para outro, por entre os montões de cavacas e de serraduras de aromáticas madeiras da Guiné. No ar havia sempre aquele cheiro a grude acabado de cozer em banho-maria, a vernizes e a tintas. Nas paredes viam-se penduradas as ferramentas, os moldes em papel, as facturas e até calendários de anos já passados. Havia um, de mil novecentos e quarenta, vindo da América e com uma vista da Estátua da Liberdade. Mano Tau era um homem robusto, atarracado mesmo, já com os cabelos e barba brancos, trazendo, quase sempre, por detrás da orelha direita, um lápis amarelo de ponta grossa daqueles que os carpinteiros usavam. Na orelha esquerda viam-se os restos de um cigarro morto, manchado de nicotina e retorcido. O Mano necessitava das suas duas mãos para colar a barriga ou as almas dos instrumentos musicais que reparava, e o cigarro, feito com tabaco da marca Gool, ficava guardado atrás das suas largas orelhas. Esse homem sempre me impressionou positivamente, desde a minha meninice, pela sua viva inteligência, pela sua habilidade manual e entusiasmo postos na feitura das coisas, das mais simples às mais complicadas, sempre movido por um grande sentido prático da vida. De trato afável, muito conversador e amigo da pequenada, que andava à sua volta para apanhar os restos das madeiras para os carrinhos de brincar, ou pedindo-lhe que fizesse, no seu torno, um pião de pau de laranjeira para as nossas brincadeiras. Mano Tau agradava a todos, dos mais novos aos mais velhos. Consertava os relógios de quaisquer marcas, de pulso, ou de algibeira, os gramofones americanos com as cordas partidas, as ventoínhas e até as telefonias a última palavra da técnica de então. Vestia-se, quase sempre, calças de ganga azul de suspensórios, que recebia de um tio da América, camisa de xadrez e gostava de beber o seu cálice de groguinha, na sua oficina ou nos botequins, acompanhado de algum amigo ou freguês satisfeito. Hoje, penso que, se fosse dado ao Mano Tau uma oportunidade para estudar (o homem que inventou uma máquina automática para medir os tecidos nas peças durante os balanços anuais), poderia ter sido um cientista ou, quiçá, um artista de renome. Infelizmente, quantos rapazes com talentos, como esse, ficaram pelo caminho! O ensino não era para todos... O Mano foi uma dessas criaturas perdidas no espaço e no tempo! Paciência, já faleceu! Foi esse artista que, empoleirado no alto das escadarias da torre da Sé, por entre as rodas dentadas, roldanas, pesos e engrenagens várias e com dois grogues na asa, tomados no botequim da esquina do Terreiro, tentava consertar os delicados mecanismos desse secular relógio, que fazia parte da história e das vidas das gentes da calma Estância – uma vila situada no vale da Ribeira Brava onde nasceu o autor.
A reparação do relógio era um árduo trabalho para o Mano Tau, pela exiguidade de espaço do trabalho e que certamente lhe tomaria quase toda a manhã. Ao descer o último degrau da escadaria de acesso à torre, e ao pisar o chão de lajes de pedra da porta da Igreja, trazia naquele rosto cândido e simples de um homem bom um nítido sinal de contentamento do dever cumprido. Sabia que as badaladas desse antigo relógio eram as únicas marcas no tempo para aquela pobre gente, sem mais referências que não fossem o assomar e o cambar do Sol, todos os dias, lá para os lados do Morro do Lombinho ou do Monte da Centinha. Falei com o Mano Tau, no Largo do Terreiro, à sombra das frondosas amendoeiras bravas carregadinhas de frutos encarnados, debicados pelos pardais de coqueiros, vindos do Tanchon. O suor escorria-lhe pelo rosto, sempre por barbear, onde os pêlos brancos já eram predominantes. Ele explicava a todos os curiosos, onde eu me incluía, os trabalhos complicados para ”pôr aquela geringonça nos eixos”, enquanto enxugava a cara com um lenço amarrotado e amarelado pelo pó e uso prolongado.
Mano? Nhô Mano, vai uma groguinha?
Era o chamamento de um dos comerciantes do Largo do Terreiro, seu reconhecido amigo de velhos tempos...
Vou já aí ter! Era a sua voz rouca, acompanhada pelo incessante gesticular dos braços.
O Mano continuava a falar aos mais curiosos, e eram muitos.
Após a trabalheira de hoje, o malvado do relógio está aí para durar. Ainda ele vai ficar a bater horas, quando o meu e vosso relógio o de dentro do peito,- o coração parar de vez, mais tempo, menos tempo! Sim ele também pára um dia...
Momentos depois, o velho relógio batia as doze badaladas do meio-dia. O som vinha do alto da torre, através da grade de ferro enferrujado, protegendo um sino de cor esverdeada. Como era hábito na terra, as pessoas idosas, as mais crentes, rezaram em surdina:
“Ave Maria, Cheia de Graça...”
CAPÍTULO 2
Seguindo eu pela Rua Direita por ironia a mais torta da urbe passei, como era hábito, pela Casa Neves, uma loja do mais próspero comerciante da praça naquela época e onde trabalhava uma irmã minha, havia um ror de anos. Junto às portas e eram muitas viam-se longas filas de pessoas aguardando a vez para darem os seus nomes, como contratados, para as roças de São Tomé. O rebuliço na estreita viela medieval era inusitado, assustador mesmo. Depois de salvar a minha irmã, parei junto ao edifício da Cadeia, local onde os poucos detidos espreitavam pelos gradeamentos de um ferro grosso e tenebroso, pedindo cigarros aos circunstantes, que passavam olhando para os lados com um ar de absoluta indiferença. Por momentos, fiquei parado, encostado no rugoso tronco de uma velha e frondosa amendoeira brava, cujas raízes levantavam as toscas lajes de pedra das calçadas (local onde hoje se situa um belo jardim). Observei a longa bicha que vinha desde a Casa Neves ao Largo da Cadeia, mesmo ao lado da Casa Alves. Era, meus Deus, a gente da minha ilha natal que queria fugir à fome, à miséria e aos sofrimentos trazidos pela seca que teimara em fincar os pés “naqueles grãozinhos de terra espalhados na meio di mar o arquipélago de Cabo Verde”. As folhas secas caíam dos ramos das amendoeiras (já não existe nenhuma no local, nem mesmo a velha amendoeira do Largo da Cadeia) e o vento, vindo da embocadura da Rua Direita, encarregava-se de amontoá-las junto às janelas bem gradeadas, local onde os presos espreitavam da escuridão daquele sinistro interior da prisão ou estendiam as mãos à caridade de quem passava. Sem destino certo, o meu olhar foi parar a um grupo, o mais maltrapilho de todos, naquela bicha interminável: o chefe de uma família, um homem alto, magro, tez amarelada pela fome e febre, de ombros encurvados pela enxada agora coisa sem utilidade com a qual, certamente, desfazia os duros torrões da ressequida e ingrata terra do Norte, anos antes; a sua mulher, embora de pouca idade, exibia um rosto amarfanhado pelas agruras da vida e anos passados na dura vida do campo na apanha da lenha de freira ou de tortolho, para vir vender, aos feixes, nas padarias da Estância, ao nascer de cada dia. O o filho um rapazinho da minha idade, dez anos (facto que me impressionou muito) e teria acabado a primária naquele ano de 1950, de rosto triste e distante, ar acabrunhado, pés descalços pisando as negras lascas do basalto das calçadas, calções de caqui já furados pelo uso, chupava, com os dedos melados e no meio de um enxame de moscas varejeiras, um pau de rebuçado, dos que a Quinha vendia, sentada no Largo da Passagem, parada no tempo. A filha do casal, de tenra idade, com uns seis aninhos e não mais, tímida, muito franzina, de olhos pretos e vivos como duas pequenas azeitonas, rosto escuro e manchado pela poeira amarela da caminhada desde as terras do Norte, olhava para tudo e para todos, como ar de quem não vinha à Estância, dias-há. Era essa uma família das que vinham dar os nomes, como contratados para as malditas roças de cacau e de café de São Tomé, fugindo à fome, deixando para trás o pouco que lhes restava: o casebre, as hortas que já nada produziam, os parentes e amigos doentes, enfim, a terra onde nasceram e donde nunca se ausentaram...O que contava, agora, era fugir, fugir quanto antes, das garras negras da fome, cujos tentáculos avançavam para eles em cada cambar do Sol. Embora sendo eu um espectador privilegiado pela sorte (o meu pai era professor e com o seu vencimento nos alimentava e educava, mesmo sem os produtos das hortas), sentia na minha pele o sofrimento daquela gente, pois naquela bicha estavam alguns companheiros meus da escola primária. A chuva não caía dias-há e, quando vinha, era sempre fora da época, para desgraça do povo ou por castigo de Nossenhor, que, no seu ilimitado poder, levava as pessoas à resignação, dizendo frases como: “é a Sua Vontade ou Maior é Deus”!...
***
Mesmo sem a chuva, Nhô Djonzinho, um bom homem do Norte, nunca deixara de enterrar todos os anos os tradicionais três grãos de milho e um de feijão ou favona, aguardando, pacientemente, e com esperança, que as chuvas caíssem daquele céu sempre azul, em forma de pernadas de água. Após as sementeiras feitas a seco, com as sementes compradas na Estância, por especial favor de alguns comerciantes e a bom preço, Nhô Djonzinho e a família ficaram naquela calmaria dos Campos do Norte, esperando todos os dias, e de olhos postos no céu, a almejada chuva de meados de Julho. Da última vez que ele descera ao povoado foi para trocar uma das portas do seu casebre por um calamã de farinha de pau e uma quarta de milho branco vindo de Angola. Ouvira dizer, para seu contentamento e da boca de gente de confiança, que nos sítios altos Cachaço, Lombo Pelado e Pico Agudo uma chuva miudinha caíra na noite anterior e se continuasse daria para o milho semeado a seco nascer. Sendo assim, pensava ele, ”mais dia, menos dia, vamos ter os Campos do Norte bem alagados e não vamos para S. Tomé”. Sonhava poder entrar pelo portal do quintal do seu casebre com os pés calçados com a lama encarnada dos caminhos, ver os beirais pingarem água e o gado de lombo molhado esfregando-se nas pedras dos muros do curral das vacas, como outrora, nos velhos tempos... Antes de repousar os fracos ossos na sua cama de finca-pé, já despojada da sua enxerga, cuja palha dera à cabrinha de estimação, de nome Ruça, que ainda sobrevivia à custa do seu desconforto, Nhô Djonzinho sentou-se no muro de pedras soltas, que ladeava o quintal, onde vegetava um enorme pé de purgueira desafiando todas as anteriores secas. Com os olhos fitos num mar distante e sem descortinar sinais de chuva, Nhô Djonzinho acendeu o seu canhoto com a erva da terra trazida da Estância e expeliu argolas de fumo, que o vento fresco se encarregou de dissipar para muito bem longe. Ficou sentado naquela postura até o cambar do Sol, pensando na vida, naquela pobre e ingrata vida de um filho de parida... Uma aragem fresca começara a soprar do mar, sem rumo certo, obrigando o homem a mudar do local e caminhar até ao fogão, à procura de um tição de lume para reacender o seu velho canhoto, agora morto e frio. Quando voltou do fogão com o canhoto aceso, sentiu no ar um cheirinho que o seu sexto sentido lhe segredara ser um sinal da chegada, para breve, das almejadas chuvas.
Falava à sua companheira Sabina:
Até estes meus ossos, castigados pela enxada a minha caneta não me enganam, mulher de Nossenhor! Estou a sentir aquela moínha subir-me da canela para a espinha, e fincar nos meus ossos da varanda - (clavícula)!
Nhô Djonzinho bateu com o seu canhoto nos umbrais da velha porta do casebre, apagou o lume com o tacão dos pés e meteu-se debaixo da única manta sebenta que ainda cobria a sua cama de finca-pé. A Sabina já ressonava de cansaço; regressara da Estância naquela tarde, após vender os feixes de lenha nas padarias, coisa cada vez mais difícil de se obter, apenas nos locais mais recônditos, nos buracos das perigosas rochas onde as próprias cabras, com medo, não iam comer as poucas ervas existentes.
***
Pela madrugadinha, Nhô Djonzinho deixou a incómoda cama de paus e veio cá fora tomar um pouco de ar fresco; olhou para o curral, esfregando os olhos de sono, e não viu a sua cabrinha Ruça, que, àquela hora, devia estar a ruminar a pouca palha de soca da parca refeição do dia anterior.
Onde estará a minha cabrinha? Já roubaram o meu tesouro!
Bocejou, esfregou os olhos ainda vermelhos de um sono mal dormido, cuspiu para cima das latas com lírios floridos de branco, e olhou, mais uma vez, para as pedras dos muros do curral.
Ai, ai , ai, Nhá mãe! Fiquei sem a minha cabrinha! E agora, que vai ser da minha vida? E o leite para a criançada?
Já mais calmo e vendo melhor com os olhos menos ensona-dos mas ainda avermelhados, caminhou até ao fundo da cerca e então viu a sua Ruça pendurada do outro lado do muro, sufocada por uma corda de coco, quase estrangulando a magra garganta do pobre animal, mas estava viva...
O céu, nesse dia, mostrava-se cinzento feio mesmo! Do mar, apenas um gemido, bem longe, quebrando a solidão dos campos ressequidos.
Triste, a porca da minha vida! exclamara Nhô Djonzinho falando à mulher Sabina, procurando acender o lume do fogão, para fazer um pouco de café, com as cascas trazidas da Estância, na véspera.
Com o canhoto descaído nos queixos e exibindo os dentes amarelados pelo tabaco, enquanto esfregava a testa enrugada com as mãos calejadas e unhas ainda com restos da terra preta dos campos, Nhô Djonzinho resmungava com a única interlocutora, naquele descampado:
Diga-me lá, mulher de Nossenhor, aonde vou buscar a comida para ti e para esses anjinhos, que ainda dormem lá dentro, envoltos naqueles bocados de mantas podres! Diga-me lá, mulher!
Absorto e olhando a vasta campina seca, que ia da sua casa ao mar, sentiu uma gotícula de chuva cair-lhe sobre a orelha esquerda. Nem queria acreditar! Essa gotinha de chuva era a primeira do ano e teve o condão de pôr uma pausa nos pensamentos ruins que verrumavam a pobre e fraca cabeça de Nhô Djonzinho. O dia clareara e o horizonte cada vez mais pardo e triste... A Sabina acendera o lume. O fumo esguichou-se pelas fendas das pedras e frestas da cobertura do casebre já com pouca palha de soca, retirada para salvar o animal da terrível fome.
Chuva! Chuva e mais chuva...Fartura do céu, amen...
A chuva realmente chegara, inundando os ressequidos campos. As pernadas de água varreram as planícies de lés-a--lés. Exclamava Nhô Djonzinho:
Nossenhor seja louvado...!
Eram as tão esperadas as-águas.
Com o canhoto apagado pela água da chuva, dirigiu-se ao velho casebre para dar a notícia à Sabina. Já no interior escuro, pois as janelas ainda estavam fechadas, encontrou a mulher ajoelhada aos pés de uma descolorida estampa de Nossa Senhora de Fátima, rezando com fervor, agradecendo-Lhe por ter mandado a chuva para os campos. A água já cantava nas pedras do quintal e fustigava a fraca cobertura de palha de soca que ainda restara. Os trovões ribombavam nos montes, os raios faiscavam nos céus e explodiam no mar e nos cabeços mais altos, iluminando os campos varridos pelas pernadas de água.
Santa Bárbara nos valha! rezava Nhá Sabina ainda ajoelhada ao lado da descolorida e suja estampa...
Os garotos, assustados era a primeira vez que viam a chuva cair meteram-se por debaixo do finca-pé, até passar a tormenta. Depois, era vê-los a brincarem nas poças de água lamacenta do quintal, nus e cabelos encaracolados pela chuva.
O dia ficara mais claro, o ar lavado de poeira e o mar azul e brilhante. Nhô Djonzinho muniu-se da cana de pesca, há muito encostada à velha purgueira do quintal, e desceu à praia, pisando a fofa lama encarnada que tapava o carreiro. Assobiava uma morna. De vez em quando, saltava os regatos por onde escorria a muita água das chuvas. Pretendia arranjar algum peixe para a comida do dia. Lá em baixo, na costa, as ondas rugiam por entre as fragas escarpadas atirando para o ar os restos de ramos e das palhas que as enxurradas lhes entregaram com as boas chuvadas. Até o rastejante lacacão tinha as suas duras folhas e as compridas ramadas viradas para o ar, tal a fúria da recente tempestade. Enquanto Nhô Djonzinho espetava uma lapa viva no aguçado e enferrujado anzol, ia deitando contas à vida:
- A vida é dura!
As ondas vinham lamber-lhe os pés, fincados nos buracos das rochas onde se empoleirara, à espera que algum bodião ou moreia preta picassem a isca mal presa ao anzol, baloiçando ao sabor do vento, na ponta da cana. Ele tinha receio que o mar, de repente, virasse mais brabo, apoderando-se do seu anzol “a minha segunda enxada” como dizia! No horizonte, deslizava um vapor, daqueles de muitos canudos, rumo às Américas...
Sim, Américas! Um bom rumo para um homem procurar trabalho. Só não o tomei dias-há, porque ainda tinha Fé em ver estes campos verdinhos, cheios de milho e feijão, com muita palha para os animais todos...
O solitário pescador continuava a falar com os seus botões:
É triste e duro deixar a terra onde a gente tem o seu cordão de umbigo enterrado para ir procurar a vida numa terra longe. Os meus vizinhos e amigos de peito, o Toi Cacai e o Lela, que tomaram um vapor de canudo igual, estão bem na América. Trabalham no duro, sim é verdade, mas têm as vidinhas arrumadas e não precisam de andar de cara virada para o céu à cata da chuva que nunca cai nestas ilhas. Uma moreia dera um esticão na linha, fazendo entortar a cana e interromper, por momentos, o fio do pensamento do solitário pescador, pendurado nas altas fragas da Costa Norte da ilha de S. Nicolau. Com os dedos dos pés bem fincados num dos buracos da rocha, puxou com firmeza a linha de nylon, que já queimava as suas gretadas mãos, numa dura luta com uma moreia pintada, já meio fora da água, não querendo largar o sombrio buraco da rocha. Dava cambalhotas no ar, enrolando-se cada vez mais na invisível e resistente linha de pesca.
Dizia o pescador, mais satisfeito:
Hoje estou com sorte! É uma pintada de preto e branco, com mais de uma braça de comprido e vai dar para o sustento da casa, pelo menos por alguns dias. Pena é não haver na despensa nem milho nem feijão,nem nada, pois então sim, a Sabina faria uma boa cachupa para eu acompanhar com umas postas desta bela moreia frita...
Nhô Djonzinho, satisfeito com a pescaria do dia, recolheu os apetrechos de pesca e guardou-os numa bolsa de lona; trepando a ladeira, entrou, com um ar triunfante, pelo quintal acima, ainda alagado pelas recentes chuvadas.
Sabina, tens uma das grandes para escalar...
A Sabina desenrolou a moreia, que ainda estava viva, abriu-a em duas metades e retirou-lhe as tripas quentes. Depois, espe-tou alguns bocados numa cana de carriço para manter as postas bem abertas e colocou-as a secar ao sol, em cima do muro do quintal, no meio de um enxame de moscas varejeiras, zumbindo desordenadamente, procurando participar naquele inesperado repasto, pois habitavam as barrigas inchadas de animais mortos e espalhados pelos campos. O fumo saira do fogão e um cheiro a moreia assada inundara o ar. Enquanto durasse a moreia pintada, a fome ficaria arredada daquele casebre, pelo menos, por alguns dias.
Nhô Djonzinho, já com as sementeiras feitas a seco, pôs-se a pensar na sua atitude precipitada em ter ido à Casa Neves dar os nomes da família para as roças de São Tomé.
Falava à Sabina, a sua mulher:
Sabina! Estou a pensar em ir riscar os nossos nomes na Casa Neves. Não sei o que me deu na cabeça para fazer tamanha asneira! Só de pensar em largar estas nossas terras do Norte, onde nós temos os cordões de umbigo, e embarcar para uma Terra Longe, que a gente nem sabe onde fica, fico com arrepios na espinha!
A Sabina ouvira tudo, para depois lhe responder.
E quem nos garante que vem aí mais chuva para as sementeiras crescerem! E depois? Se não vierem, o que vai ser da nossa vida e a daqueles dois anjinhos que dormem lá dentro?
As coisas corriam de feição para a família. Afinal, a chuva, a tão almejada chuva, acabara por chegar. O milho iria nascer tímido e fraco por debaixo das pedras, depois seria mondado, trabalhado e deitaria as bonecas com as barbas castanhas agarradas às canas como as crianças aos colos das suas mães; os feijoeiros trepariam pelos pés de milho, as aboboreiras dariam flores amarelas e abóboras compridas ou redondas. As barbas-de-bode cresceriam pelos campos para matar a fome aos animais, cobrindo tudo com um manto verde, dos montes ao mar. Enfim, a tal desejada fartura do Céu, amen! Sonhos e mais sonhos...
Após as primeiras chuvadas de Julho, regando copiosamente a ilha de lés-a-lés (o coveiro do cemitério da Tabuga, dizia que a molha era de três palmos, e ele, mais que ninguém, conhecia e cavava a terra), várias pessoas foram à Estância fazer a des-marcação dos nomes nos cadernos expostos na Casa Neves. O milho estava a ser mondado e trabalhado. As pequenas folhas ainda ostentavam as gotas de orvalho das noites frias, água que os pardais logo bebiam, pela manhãzinha. O céu de Julho continuava muito azul, ”mau presságio” no dizer de Nhô Djonzinho postado no quintal, junto à velha purgueira, conversando com um amigo, sentados no muro:
A minha cabrinha está salva! Já não vou ter precisão de ir vendê-la na Estância, ao Nhô Lima do Matadouro. Após colhetar o milho deste ano, irei comprar algumas peças de roupa para a Sabina e para os meninos. Não vamos precisar de embarcar para tão longe, para São Tomé como maltrapilhos sem eira nem beira, não achas, Chico! Para aquela Terra Longe cheia de cobras e de perigos vários...
Não sei o que te dizer, meu caro amigo! Estou a ver esse Julho de má cara, e já vamos a vinte e sete, quase no fim do mês.
Os dias foram passando; o milho crescera; os cabeços, outrora despidos e amarelados, cobriram-se de junças e de barbas-de-bode. Nhô Djonzinho, pela morrinha da tarde, sentava-se ao lado do pé de purgueira do quintal, sonhando com a fartura de comida na sua horta, mesmo aos pés, agora coberta de lindo e verde milheiral ondulante ao vento, como as ondas do mar. Sonhava com as canas da altura de um homem, com duas ou três espigas, as aboboreiras rastejando que nem lagartas por entre as pedras da Chã, parindo pelo chão muitas abóboras.
Sim, terei de deixar a cama de finca-pé, muito cedo, para ir enxertar as flores das aboboreiras, antes que o malvado do sol faça murchar as pétalas amarelas. Sem esse enxerto o casamento das flores das flores machos com as flores fêmeas não há abóbora que vingue!
Nhô Djonzinho dedicava especial atenção à velha purgueira do quintal, uma planta que o pai lhe deixara ao morrer. Gostava de ficar sentado à sua sombra, à hora da calmaria da sesta da tarde e aí fumar o canhoto, até esgotar a erva. As sementes eram colhidas, ensacadas e vendidas nas lojas da Estância a bom preço, principalmente no tempo da guerra. Os carregamentos de sacas daquela oleaginosa seguiam de barco para São Vicente para o fabrico do sabão. Também se retirava um azeite das sementes, muito utilizado na cura do reumatismo e das dores de barriga. Nhô Djonzinho, conversando com o compadre à sombra da purgueira, contava que, certa vez, em sua casa, a Sabina, ao fritar umas postas de moreia, enganara-se na garrafa e usou na cozinha o azeite de purgueira em vez do óleo de baleia...
Compadre?! Foi uma caganeira danada, que nem queira saber! Dias depois é que ela deu pelo engano, mas já era tarde.
A própria árvore de purgueira do quintal ressentira-se dos efeitos prolongados da seca e, só alguns ramos mais altos davam cachos de sementes. Quando caíam para o chão, os filhos tinham a dura tarefa de catá-las dos buracos das calçadas para dentro de uma saca de serapilheira, encostada ao seu sinuosos tronco, por onde escorria uma seiva leitosa. Uma nódoa que ficava na roupa, para sempre. Nhô Djonzinho, debaixo da sombra da árvore, contava aos filhos que, durante a última guerra, as sementes das purgueiras eram utilizadas na iluminação, sob a forma de brodjudos, ou em azeite, para as candeias de bronze de quatro bicos, acrescentando:
Nós fazíamos o sabão neste quintal, à sombra dessa frondosa amendoeira brava mostrara-lhes os restos de um tronco já seco, espetado no chão. Um tacho de latão, cinzas das bananeiras, azeite de purgueira e a mistura agitada com um pau de cafeeiro até fazer o ponto coisa que só a vossa mãe Sabina sabe. A massa, ainda quente, era embrulhada em palha de bananeira e pendurada num local abrigado para a secagem. Era com esse “sabão da terra”, que ela lavava as roupas, naquele tempo, meus filhos...
A purgueira de Nhô Djonzinho ajudara-o a mitigar algumas crises, com a venda das suas sementes. Agora, com a seca, os ramos definhados poucos grãos davam. De resto, há muito não vinham navios carregar as sacas de sementes para levar para São Vicente, como antigamente acrescentara de seguida. Esse pé de purgueira de tronco sinuoso e enrugado era o muro das lamentações do velhote o local onde ele deitava contas à vida quando, à tardinha, as galinhas começavam a pular para os seus ramos, largando-lhe nuvens de finas penugens sobre a cabeça desprovida de cabelos pretos.
CAPÍTULO 3
Chegara a época das mondas, sem as quais as junças, as gramas e as socas, em breve, cobririam o frágil milho recém-nascido. Nhô Djonzinho, muito curvado, aspirava profundamente o cheiro a terra molhada e a folhas apodrecidas, coisa que não sentia dias-há. Foi dando dois dedos de conversa com a mulher Sabina, esta de joelhos no chão, ao seu lado, arrancando também as daninhas ervas que iam ficando para trás, aos montículos, para a refeição da Ruça, agora fechada no curral por causa das sementeiras já nascidas. Ao cambar da tarde, o pobre homem sentava-se num dos penedos, à cabeceira da horta, donde via toda a costa Norte, e, em tom de profundo desabafo, clamava aos quatro ventos:
Que beleza, Sabina! Que formosura! Que lindeza de horta!
Ao lado ficava a horta do amigo Mano de Cleto um verdadeiro preguiçoso que apenas queria a vida do grogue. O milho, coitadinho, nascido havia duas semanas, esticava as folhas amareladas à procura do sol, meio sufocado pelas péga-saias e manégatinhos ervas daninhas que cresciam com redobrado viço, sufocando as plantas mais frágeis.
E esse malvado do Mano com a horta ainda sem a monda! A minha, essa não, está uma beleza...
Enquanto os pais mondavam a horta, a Nina e o Toni, filhos do casal, brincavam arredados do local, ao lado de um muro de pedras soltas, onde havia alguma sombra. Os garotos esquivavam-se, quase sempre, ao duro trabalho da monda, até porque as ervas daninhas, bem fincadas à terra já rija, cortavam a frágil pele das suas mãos e nem sempre tinham forças para arrancá-las de vez, de raíz. Pensavam terem dado aos pais um contributo na guarda aos pardais e aos corvos, que teimavam em arrancar as tenras folhas dos pés de milho e os grãos, agora ocos dentro da terra. Sentiam-se com direito às brincadeiras de meninos da sua idade, correndo por entre as ervas mais altas, enquanto os pais suavam em bica, dobrados pela espinha, fazendo a monda. A testa enrugada de Nhô Djonzinho e a face queimada da Sabina estavam alagadas de suor, pingando para o chão ressequido.
Falando, por entre os dentes:
- Dia quente, de um Julho comprido, sem fim! Mau sinal para um Agosto que aí vem, não achas, Sabina?
- Sei lá, homem de Nossenhor! Não me cheira a coisa boa! Este calor é demasiado para o tempo. As plantas não vão conseguir aguentar-se nas canetas até a chegada da chuva...
Nhô Djonzinho chamara pelo Toni, que veio a correr com medo de apanhar alguma sova do pai severo...
Toni? Vai ao quintal e traz-me o moringue da Boa Vista com água fresca, o que está à sombra da purgueira...
Toni voltou, momentos depois, segurando com medo o moringue de barro, e entregou-o ao pai, que, tomado pela secura do tempo, bebeu três golos do precioso líquido, pousando de seguida a bilha à sombra do muro, com redobrados cuidados. A Sabina, também estafada pelo calor ardente que fazia, até então de cócoras, erguera-se dificilmente e com os ossos aos estalos. Com as mãos em concha e voz esganiçada, chamara pela filha Nina, na altura a brincar do outro lado do muro da horta, quase que engolida pelas ervas.
Nina, Nina...Nina!
A filha resolvera finalmente responder à chamada da mãe, embora contrariada pelos incessantes chamamentos!
Vamos fazer o almoço para o teu pai...
As duas, mãe e filha, de braços dados, seguiram rumo à casinhota do quintal, onde era o fogão. Acenderam o lume e puseram a assar a derradeira posta de moreia, que ainda secava ao sol, invadida por enxames de coloridas moscas varejeiras.
Nina! Vais apanhar uns paus de lenha, mas daqueles da horta! Estás a ouvir-me e nem tentes fazer, como há dias, retirando alguns dos feixes para a venda nas padarias da Estância...
A Nina partiu correndo que nem uma seta pelo quintal fora, com a juventude dos seus seis aninhos, com a saia de xadrez encarnada, manchada pelo verde das ervas. Não catou a lenha no campo, não! Apanhou a mãe distraída e foi surripiar alguns paus, dos feixes já preparados para seguir para as padarias.
Mais um pecado, quando eu me confessar ao Nhô Padre, antes da missa da Páscoa...
O recinto do fogão era exíguo: um casinhoto de paredes de pedras soltas e cobertura de palha de soca. No seu interior, um poial com três pedras de cantaria lavrada, suportando uma panela de ferro preto de três pés. Do tecto, pendiam algumas teias de aranhas tisnadas pelo fumo da lenha. Com o lume aceso e o fumo saíndo pelas muitas frestas das paredes, sentia-se o cheiro da moreia assada na brasa. Nhô Djonzinho pousara a enxada ao lado da purgueira, exclamando:
Está na hora de sossegar este estômago, Sabina! O resto da monda fica para a parte de tarde ou para amanhã...
Com um braçado de ervas para a Ruça, agora de patas sobre o muro, aguardando impacientemente a chegada do dono, pôs-se a caminho do fogão. Parou e atirou a palha à cabrinha, olhando em direcção da sua horta. Duas tonalidades de verde estavam à vista: a do milho mondado e a do talhão ainda por mondar.
Ainda vamos ter trabalho para mais uns dois dias, Sabina! Temos de pagar a mão trocada ao compadre Cleto, não te esqueças. O trabalho pesa, mas não mata! É melhor assim do que abandonar esta casa, os nossos parcos haveres, a cabrinha e embarcar para aquela Terra Longe de São Tomé...!
Os dias foram ficando pelas costas, naquela calmaria podre de um cru mês de Agosto sem chuva, já a meio, e com os negros corvos rondando num céu azul claro muito transparente. Entretanto, o milho já tinha dois palmos de altura e as folhas, depois do meio-dia, começavam a ficar murchas, enroladas como o tabaco dos charutos. As plantas ainda conseguiriam aguentar-se por mais uma quinzena, mas, se a chuva não viesse nas próximas semanas, seria outra Desgraça, com “D” grande no dizer do velho e pensativo agricultor- já escaldado pelas anteriores e sinistras secas de má memória.
Vida de agricultor, vida desgraçada...
Os cabeços, até então verdes, começaram a ficar amarelados, com a chegada do temível vento seco de Leste, o Suão.
Nossenhor é Grande e o Mundo é Largo... dizia Nhô Djonzinho sacudindo a cinza morta do seu canhoto manchado de castanho da nicotina e cuspindo a saliva para o chão, procurando dar um pouco de coragem a Nhô Lela, já desa-nimado de todo...
A Sabina, após servir o almoço de moreia assada, partira para a Estância, levando à cabeça dois feixes de lenha para vender na padaria de Armando Fonseca. Quando o dia morria no horizonte e a negra noite já tomava conta do infindo e desértico campo do Norte, ela regressava à casa, cansada, com as vestes encardidas pelo pó da caminhada, trazendo amarrado num pano alguma comida e más novas: Ouvira dizer na Estância, da boca de gente de confiança, que as sementeiras do Campinho para cima também começavam a ficar murchas, como as do Norte. Até a Ribeira de João estava sem água. Na bica na Passagem, apenas um fio escorrendo e as mulheres enfileiradas com as latas ao pé, esperando a vez para as encher com o precioso líquido. Os animais também disputavam, aos coices, um lugar no Bebedouro Municipal, para ali matarem a sede. Depois de descansar um bocado e beber uma caneca de água, a Sabina continuava a fala:
Djonzinho, isto não vai mesmo nada bem! Não há sinais de chuva e as pessoas estão a confirmar os seus nomes na lista da Casa Neves, para contratados para as roças de São Tomé. Se o tempo continuar assim duro e de má cara é o que vamos fazer também, não achas?!
Sossega, mulher de Nossenhor! A chuva ainda vai cair!
Sim, certamente, mas fora do tempo, quando o milho já estiver todo seco e estorricado.
A monda fora acabada já com os pés de milho murchos. Só os que estavam junto ao morouço da horta de Nhá Filipa, ou nascidos à sombra da velha purgueira do quintal tinham algum viço, mesmo nas horas do cacimbo. Quando o desalmado sol do meio-dia, de um ingrato Setembro, ficava a pino e as galinhas se abrigavam nas sombras de bicos abertos e olhares vagos, Nhô Djonzinho contemplava, comovido, desesperado e com água nos olhos, a sua horta, que, semanas antes, via-se tapada com o verde das plantas. Até as aboboreiras, que cobriam por completo o chão de terra encarnada e barrenta, tinham as folhas enroladas e as abóboras, ainda em formação, espalhadas pelo campo quais soldados vencidos num campo de batalha mesmo antes do início dos combates. Metia dó!!
Ele falava à Sabina:
Mulher, sou homem-macho, mas até sinto vontade de chorar!
Era o dasabafo desse pobre agricultor e talvez o de muitos outros, vivendo de olhos pregados num céu ingrato. A Sabina, de dorso curvado pelo peso das lenhas, transportadas anos a fio às costas, ouvia o marido, calada e sisuda. Não conseguia palavras para o consolar. Não as encontrava, por mais voltas que desse ao seu cansado miolo. As ervas, essas sim, pondo a funcionar o mecanismo natural de perpétuação da espécie, conseguiram reunir as derradeiras forças para “parirem algumas minúsculas e invernosas flores”, das quais sairiam algumas raquíticas sementes para os anos vindouros. Dos cabeços altos aos desnudados e poeirentos Campos do Norte, o aspecto da ilha era cada vez mais desolador. A terrível e cíclica seca teimava em manter os pés bem fincados nas solitárias ilhas, abandonadas, por ironia do Destino, no meio de tanta fartura de água do mar... Nhô Djonzinho começava a ver a sua vida e a dos seus a andar para trás, como os caranguejos, lá em baixo, nas fragas da ruídosa costa. Antes de repousar os ossos doridos no finca-pé, vigiava o céu, espreitando com atenção, lá para as bandas da Ponta da Ilha, com intuito de enxergar algum sinal conhecido da chegada da chuva...
Nada, gente! Nada! Nem a Lua tem aquele halo colorido e nem os ossos me doem mais...
Todos os dias, ao saltar da cama, quando os galos cantavam na purgueira do quintal, ele espreitava pela janela de bandeiras de pau, dando de caras com a sua horta, cada vez com mais chão encarnado e descoberto. Mesmo àquela hora fresquinha, só os pés de milho junto à cozinha, local onde a Sabina jogava as águas dos despejos e das lavagens, ainda estavam de pé.
Nossenhor, que está lá de riba, vendo para a gente tem a obrigação de olhar para os filhos que Ele pôs aqui na terra!
As frágeis canas dos milhos, despojadas da seiva, ocas mesmo, já não tinham forças para se susterem de pé, mesmo quando o envergonhado Sol desaparecia no horizonte e chegava o cacimbo da noite.
Oh Sol maldito, que nos castiga sem piedade!
Cuidado, homem desalmado! Olha que o Sol também é de Nossenhor e Ele pode ficar zangado connosco respon-dera-lhe a mulher Sabina fazendo o sinal da cruz com o polegar direito sobre a testa enrugada.
O Sol é do Diabo, do Inferno, mulher!
Olha que Ele te castiga, homem de não-sei-que-diga!
À tardinha, quando a frescura chegava do mar, alguns pés de milho, os mais teimosos, tentavam levantar-se do chão quente e ressequido, para logo tambar, sem forças qual aleijado privado da sua única muleta. Os dias foram passando. Mais uma noite de calmaria. Nhô Djonzinho não queria desiludir a Sabina nem revelar-lhe o desespero que anavalhava a sua alma, dia e noite. As folhas dos milheirais iam ficando cada vez mais enroladas “até pareciam charutos” no dizer do trocista Toi Cacai, a quem chamavam de “maluco do Norte” porque dizia “não estar para fazer hortas para nada, para os bonecos e ficar de olhos fincados no céu á espera do que não vinha – a chuva” Nhô Djonzinho virava-se no finca-pé, fazendo ranger as canas de carriço mal atadas. Ao menor ruído do vento nos beirais desfeitos do seu casebre, ou a qualquer restolhar das folhas secas da purgueira no chão do quintal, ele saltava da incómoda cama, abria uma das janelas, a que dava para o mar, e espreitava o céu.
Nada, mesmo nada...! nem fumo nem mandôde de chuva!
Toni e Nina deixaram de frequentar a escola do posto escolar, havia já uma quinzena. Agora, nem a Escola! O mestre Luís ficara na Estância; já não havia alunos que justificassem a permanência de um professor naquele local ermo e descampado. A fome e as doenças iam ceifando os alunos, um a um, sem dó nem piedade! Nhô Djonzinho, por entre os dentes amarelos do tabaco, rugia:
Onde estará esse Nossenhor que abandona as crianci-nhas? Ainda há dias, ouvi o padre capuchinho dizer na missa, na Estância:
“Deixai vir a Mim as criancinhas”! Será que Ele as quer lá em cima, na Sua companhia?
Era um desabafo de desespero vindo da alma de alguém que sentia na pele o sofrer da pobre gente da sua ilha.
Sabina, sabes uma coisa? Esta noite tomei a decisão de ir à Casa Neves confirmar o nosso embarque para São Tomé, para a Terra Longe... O milho está todo seco e até o malvado mar, agora sempre brabo, já não quer dar mais peixes! Amanhã, vou vender a Ruça ao Nhô Lima do Matadouro, confirmar os nossos nomes na Casa Neves e falar com Nhô Jaime...
CAPÍTULO 4
Mal o sol rasgara o horizonte, o homem desceu ao curral e de lá retirou a cabra, que ainda dormitava junto ao muro. O animal levantou-se esperando pela palha, habitual àquela hora, um mimo do dono, sem falhar. Com lágrimas nos olhos, falou-lhe:
- Minha querida Ruça, hoje é o teu último dia! Tenho pena de ti, mas também tenho uma mulher e dois filhos para sustentar.
De focinho no ar, o animal parecia ter entendido a justificação do dono e abanou as orelhas cheias de moscas. Com a cabra presa a uma corda de coco, Nhô Djonzinho tomou a direitura do Matadouro, situado na margem da ribeira, à entrada da Estância, local donde já se avistava a velha ponte de madeira. Nhô Lima o homem que explorava o Matadouro veio ao portão, ainda com as mãos ensanguentadas da matança anterior e cumprimentou Nhô Djonzinho com um aceno de cabeça. Após uma demorada conversa, o negócio ficara fechado. O magarefe arrastou a cabrinha Ruça para dentro do matadouro. O animal, antevendo o seu fatal destino, fincou as patas na soleira do portão e olhou o dono, quase pedindo-lhe uma derradeira clemência.
- Fome é fome! dizia Nhô Djonzinho. Gosto muito de ti, Ruça, mas tenho lá em casa mulher e dois filhos para sustentar, como já te disse...
Com lágrimas nos olhos, embrulhou o dinheiro recebido num lenço amarelado pelo pó da caminhada, subiu a escadaria de pedra de acesso ao Matadouro, e retomou o caminho do centro da Estância, para ir confirmar os nomes na Casa Neves.
Nhô Djonzinho? falou-lhe Nhô Lima quando estiver de volta para o Norte, passe por cá para levar alguns ossos e miudezas para a gente lá da casa.
O regresso do desolado homem, após ter confirmado os nomes dos familiares como contratados para São Tomé, foi muito penoso e difícil. O cheiro da cabrinha Ruça chegara-lhe ao nariz, através da corda de coco que trazia de volta para casa, um odor rançoso a estrume de curral e a leite fresco, à mistura com o da palha nova. Ao chegar à Cruz de Maria do Carmo, no alto do Lombinho, sentira-se só, cansado e derrotado pela ingrata vida, um beco sem saída. Sentou-se à beira do caminho, à sombra de uma recurvada espinheira preta, agora coberta de cachos de flores amarelas. Com as mãos em concha, para se proteger do vento, acendeu o seu canhoto com a erva comprada na Estância e aí ficou algum tempo, apanhando o ar fresco vindo do mar, rugindo lá longe. Sentira, de novo, o odor persistente da sua cabra. Pôs a trouxa que trazia sobre uma pedra e olhou em direcção à espinheira solitária e triste, de copa curvada no sentido dominante do vento, esse maldito vento que fazia fugir a chuva das ilhas.
Vento do Inferno, ou de não-sei-que-diga!
No local reinava aquele silêncio habitual do meio-dia, nos campos. Os pardais saltitavam, preguiçosamente, de ramo em ramo, levando nos bicos algumas lagartas para os filhos, gritando desesperadamente nos ninhos e de bicos abertos.
Afinal, não é o que ando a fazer também Falou Nhô Djonzinho! Estou a levar a comida para os meus filhos! Quem me dera ser um desses despreocupados pardais do campo, em vez de gente...! Nossenhor me perdoe! Gostaria de ter nascido pássaro, em vez de homem!
Nesse preciso momento, um bando de negros e agoirentos corvos cruzava o morro do Lombinho, na direitura do Recanto. Algumas silenciosas canhotas, em voos circulares, com as largas asas espalhando sinistras sombras sobre a terra branca do caminho, de pescoços pelados e encarniçados, rondavam uma carcaça semi-desfeita de um burro, não muito longe do local, no meio de um enxame de ruídosas moscas varejeiras. Aquele triste e solitário caminhante um fugitivo da má sorte sentia, mais que nunca, o peso de ter uma família. A fome e a incerteza do amanhã traziam-lhe à boca o travo amargo das folhas das babosas. Num gesto repetido, enrolava e desenrolava a corda de coco que trazia. Olhou para o sinistro ramo da espinheira, agora sob a forma de um Diabo, baloiçando convidativamente, mesmo à sua frente, num chamamento quase irresistível, dizendo-lhe:
Anda cá, Nhô Djonzinho, seu desgraçado! Até tens a corda pronta! Pendura-te nela e em mim, aqui neste ramo!
Os corvos e as canhotas passaram, assombrando com as suas asas aquele fatídico local, donde se avistava o cemitério da Tabuga...
Não! Não vou...
Nhô Djonzinho rezou coisa que fazia poucas vezes jogou a corda para longe e ela ficou a baloiçar, pendurada num ramo da espinheira preta, enfeitado com grinaldas de flores amareladas. O Sol dizia adeus ao dia e desaparecia, lentamente, no longínquo oceano, deixando a água com alguns laivos encarnados e alaranjados, indo morrer lá para as bandas do casebre de Nhô Djonzinho, nas terras do Norte. Quando o homem transpôs a soleira da porta da casa, os grilos batucavam nas fendas dos muros e os supleta-e-fogo lançavam nos morros os seus lúgubres pios de fazer gelar a espinha a um filho-de-parida. A família aguardava-o, em redor do fogão, de lume aceso e fome na barriga. Nem houve tempo para moer ou cochir o milho branco dente de cavalo, trazido da Estância, que foi torrado numa tigela de barro da Boa Vista, juntamente com a areia, para que os grãos não saltassem pela borda fora, para regalo da única galinha poedeira da casa. Nhô Djonzinho, muito cansado e ainda trazendo a poeira do caminho no rosto e nos pés, de testa sempre enrugada, sentou-se num mocho, à entrada da cozinha e ficou a ver a sua horta morrendo à míngua de água. Era a derradeira tábua de salvação, para não ir parar à terra longe de São Tomé. Os pingos de lágrimas rolaram do seu rosto para o chão, enquanto sentia as folhas do milheiral estalarem em seco. Já não havia nenhuma cana em pé. Olhava o céu e pensava na canseira que tivera para conseguir as sementes na Estância, vendendo as portas de boa madeira do seu casebre feito com tantos sacrifícios.
E agora! Vejo morrer as plantas, sem nada poder fazer por elas! Vida de agricultor, vida ingrata e de desgraceiras... E a enxada, a minha inseparável companheira, para que serves agora? Para nada...!
A ferramenta sem qualquer utilidade, via-se encostada ao pé da purgueira do quintal, parecendo querer dialogar com o seu dono:
Que desgraça, meu velho! - Quando iremos, outra vez, para a Chã, partir aqueles malditos torrões de terra rija, como nos dias felizes de outrora?
Nhô Djonzinho respondia-lhe:
Não sei se voltaremos a encontrar-nos...eu, tu e os torrões. Os tempos são outros, minha querida enxada!
Nhô Djonzinho recordava-se, com certa nostalgia estampada no rosto, daqueles dias felizes de outrora passados na companhia da sua, agora inútil, enxada. Até precisava de secar os dedos na palha verde para que ela não lhe escorregasse das mãos. Acendeu o seu canhoto com a erva que ainda lhe restava, encheu o peito de fumaça e sacudiu um gafanhoto verde, chegado da horta. Nem queria acreditar no que via!
Nossenhor nos acuda! Gafanhotos? Essa terrível praga, vinda de não sei donde? Uma desgraça nunca vem só lá diz o nosso povo...
O pobre homem levantou-se do local, sacudiu as cinzas do canhoto no tronco da velha purgueira do quintal, subiu para cima do muro e saltou para dentro da sua horta. Nem queria acreditar no que os seus olhos viam...
Nossenhor, não contente com a seca, ainda nos manda uma praga de gafanhotos? Não, não pode ser...
Era a dura realidade! O que sobrara da horta estava a ser devorado pela maldita praga daqueles micróbios como ele dizia “vindos das profundezas dos Infernos”.
Sabina...! Sabina! Venha cá fora ver esta calamidade...!
A mulher, de saia atada à cintura com uma corda, saiu do fo-gão, esfregando os olhos vermelhos do fumo da lenha verde, e parou junto ao muro da horta, limpando as mãos a um avental.
Vês, vês...! Uma desgraceira nunca vem só! Esses micróbios vieram dar cabo do resto.
A Nina e o Toni, de bolsos cheios de milho torrado ainda quente, saltaram o muro e desataram a correr pela horta fora, à cata dos gafanhotos, que fugiam para os lados em nuvens, indo parar às hortas dos vizinhos, deixando os pés de milho reduzidos a canas e a um rendilhado, tudo o que dantes era verde. A galinha poedeira lá da casa já engolira tantos gafanhotos que estava prostrada à sombra, de papo bem recheado e bico aberto. Nhô Djonzinho viu assim desaparecer os derradeiros pés de milho, devorados pelas minúsculas mandíbulas daqueles insectos ruins, que não poupavam nada que fosse folha verde. A praga, vinda do mar, após devastar as hortas e as copas das poucas árvores ainda existentes, rumou para a Estância, Campinho e outros locais, devorando a ilha de lés-a-lés. O povo, ainda se organizara em brigadas, barrando a estrada do Lombinho, munido de folhas de coqueiros e de ramos de acácias, para darem cabo dos malditos gafanhotos. Entretanto, os insectos que ficavam esmagados no pó do caminho eram logo substituídos por outros, passando por cima de tudo e de todos, seguindo ribeira acima. A cena fazia relembrar a hipotética defesa do povoado, séculos antes, quando os piratas, desembarcados no porto da Preguiça, foram esmagados numa célebre emboscada, num local com o topónimo de Fundo de António Portuguesinho nome de um degredado do Reino que fugira da ilha , regressando tempo depois, chefiando os piratas invasores. Só que, agora, não havia nem ouro nem prata para defender, mas sim, o milho, apenas o milho, o ouro sagrado e necessário para matar a fome às desesperadas gentes da ilha de São Nicolau. A noite abraçara de mansinho os ressequidos campos do Norte; as estrelas brilhavam mais que nunca num céu escuro; o cacimbo, vindo do mar, fazia gotejar os beirais de palha de soca dos casebres. Perante tamanha calamidade, o velho e cansado chefe de família não conseguia dormir. Arrastando a perna esquerda, a mais atacada pelo reumatismo, apanhado na costa durante as pescarias, Nhô Djonzinho entrou para o casebre e voltou, momentos após, com a sua rabeca uma que o Mano Tau lhe consertara na semana anterior em troca de uma boa porta de madeira de mogno do seu casebre. Sentou-se numa pedra e encostou-se ao troco da purgueira, lançando negras sombras no chão esbranquiçado e ressequido do quintal. Falava à Sabina, que acabara de arrumar os pratos e a caldeira na cozinha, fechando a porta com uma pedra do mar:
Sabes, Sabina, hoje deu-me na veneta espantar as minhas mágoas, tocando uma morna só para ti...
Retirou um lenço do bolso e com ele limpou a humidade e as poeiras acumuladas na barriga e cordas da rabeca, recentemente arranjada pelo Mano Tau. No silêncio da noite, ouvindo os grilos batucando nas trevas, o tocador de rabeca afinou o instrumento com paixão, passou a resina pelos fios de carrapata do arco e encostou-a ao queixo. As melódicas, melancólicas e pungentes notas perderam-se o espaço, disputando o silêncio com os estridentes grilos. Com uma voz rouca, foi cantando:
“Quem mostrôbe esse caminho
longe,
caminho pâ
Santomé...”
Tocou, tocou até não mais parar. Sentia os braços tolhidos pela frieza da noite, tendo ao lado a mulher Sabina já adormecida...
“Sôdade, sôdade
de Nhá terra Sanicolau...”
A Lua cheia escondera-se numa nuvem, espalhando sombras no ressequido campo do Norte. A Sabina, de cabelos desgrenhados pelo vento e esfregando os olhos de sono, chamava-o, insistentemente por ele:
Para dentro, anda, Djonzinho! Há muita frieza lá fora...
Com o rosto molhado pelo cacimbo da noite, o homem conti- nuava a cantar e a tocar sem parar, como um louco desvairado.
“...se bô escrevême, n’ta
escrevêbo,
si bô esquecême, n’ta
esquêcebo,
até dia qu’un voltá...”
Foi a muito custo, que os crispados dedos de Nhô Djonzinho largaram o frio pescoço da madeira da rabeca. Parecia um náufrago agarrado a uma tábua de salvação, no seio de uma grande tormenta. Por momentos, a horta que morria moribunda, mesmo aos seus pés, saira da sua cabeça. Os dedos queimados não queriam abandonar as frias cordas de fino e cortante aço, num vaivém compassado; o cacimbo da noite impedia mais movimentos dos seus grossos dedos, tolhidos pelo reumatismo. Lá longe, na escuridão da noite, uma luz saía de uma janela e cortava a bruma, em feixes paralelos. Um vulto esguio, postado no frio peitoril de pedras de uma janela, ouvia a música, batendo com a cabeça num compasso certo, próprio de um tocador.
Todos nós, de vez em quando, temos alguma desgraça à perna, uns mais que outros assim pensava Nhô Zeferino com mais resignação, ouvindo, ao longe, Nhô Djonzinho tocando com alma aquela triste morna, no quintal do seu casebre.
A rabeca, finalmente, foi descansar ao lado do dono que, no finca-pé, conseguira adormecer, ouvindo o marulhar das ondas nas fragas da Costa Norte.
CAPITULO 5
Pela manhãzinha, Nhô Djonzinho foi acordado pelo tamborilar da água nas latas com lírios floridos de branco, postadas ao lado da escada de acesso ao casebre. Levantou-se. Da janela espreitou o horizonte escuro. Nem queria acreditar no que via...
Chuva, chuva... a tal chuva! gritara para a Sabina!
A mulher acordara-se, quase que entornando o penico, colocado ao lado da rabeca do marido.
Sim, a chuva, muita chuva, não ouves o barulho no mato, mulher de Nossenhor!
Era a tão esperada molha de Agosto ou de Setembro, que resolvera chegar, mas muito atrasada, já nos finais de um Outubro quente, seco e de má cara. Nhô Djonzinho estava triste! Chorava! Não de alegria mas de raiva. Por entre os dentes amarelados pelo tabaco, vociferava à pobre mulher, como se ela tivesse alguma culpa da vinda tardia da chuva:
E agora? Para quê a chuva, diga-me lá? O milho está todo seco e os gafanhotos já deram conta do resto! Ele não devia ter feito isso com a gente...!
O Toni e a Nina vieram ver a chuva, pela segunda vez. Sim, a chuva que fustigava a cobertura do casebre e entrava pelas fendas das portas e das janelas formando poças de água no chão de terra batida do casebre, nos buracos onde as galinhas punham os ovos das manhãs. Reinava uma geral alegria naqueles rostos, menos no do chefe da família, que não conseguia acender o canhoto para a fumaça da manhã e esconder o seu descontentamento. Tremia de raiva e a chuva não deixava avivar o lume na erva do canhoto. Não conseguia conter a raiva que verrumava a sua cabeça, ao ver a horta alagada, mas com o milheiral seco e enterrado na lama. Arrastando com dificuldade a perna esquerda, a mais atacada pelo reumatismo, saltou uma poça de água do quintal e postou-se junto ao muro sobranceiro à horta, vendo a chuva vassourar os campos pelados. Uma branca baba escorria-lhe do canto da boca, mesmo ao lado do canhoto, baloiçando ao sabor dos impropérios que vociferava para a Sabina, para os filhos e para a vizinhança toda:
Um homem tem alguma fé, mas assim tanto, não! Não aguento mais esta desconsideração...
Sabina, como sempre, rezava. Uma copiosa chuvada continuava a fustigar o quintal, agora transformado num grande lago de água barrenta. As torrentes escorriam em cascatas pelas valetas de pedra, rumo aos umbrais de uma cancela já sem porta. O malogrado agricultor, num acto desesperado de raiva, saltou o muro, enterrando os pés na lama misturada com algumas folhas secas do milheiral, agora rendilhadas pelos gafanhotos, baixou as rotas calças de ganga, umas que o tio Cleto lhe mandara da América, no Madalan, e virou o rabo para o céu, vociferando:
Chuva! Chuva? Agora? Cai aqui...!
A Sabina, espantada com o gesto desesperado do seu homem, e ainda embrulhada na manta com vários buracos feitos pelas ratazanas do campo, começara a rezar em voz alta, pedindo a Nossenhor as desculpas pela cabeça fraca do seu homem sofredor e que não o castigasse mais. Toni e a Nina, de cabelos molhados pelos pingos dos beirais, olhavam os pais abraçados, chorando no meio da lama do quintal, abrigados pela purgueira e sem nada compreenderem. Como crianças que eram foram correr barquinhos de papel na água que alagava as terras do caminho, correndo e saltitando atrás dos gafanhotos sobreviventes do dilúvio.
Três semanas após:
Alguns pés de milho, os situados no local onde a Sabina deitava as águas sujas, tinham espigas. Nhô Djonzinho sentou-se ao lado deles, respirando o perfume do pólen que brotava das barbas das bonecas ainda novas e acariciando as largas folhas verdes. Exclamou:
Sim! Se tivesse chovido a tempo e horas, toda a minha horta estaria assim, como esse pé de milho, à minha frente. Com bonecas e flores ao vento, espalhando o cheiro do pólen pelo ar. Mas não! O que vejo? Umas canas espetadas num mar de lama quais mastros de um navio naufragado no alto mar tão naufragado como está a minha vida...
Tremendo de frio e de raiva, acendeu o canhoto deitando algumas argolas de fumo para o céu, que acabara de ofender.
CAPÍTULO 6
Chegara o mês de Outubro e com ele, as almejadas festas de Nossa Senhora do Rosário a padroeira da principal freguesia da ilha. Nhô Djonzinho e a família, vestidos a rigor com a melhor farpela, vieram à Estância. O Largo do Terreiro estava engalanado com ramos de buganvilas, colhidas no alto do Pasmatório e tarafes das Maiamas. Só faltavam os tradicionais pés de milho com espigas coisas que só aconteciam quando o ano era de boas-águas.
No Largo, Mané Pexei, um bom tocador de rabeca, conversava com o amigo:
Sabes, Djonzinho, este ano não está para brincadeiras! Nem um pé de milho para enfeitar este Largo; até as canas sacarinas vieram das Queimadas...
Toni e a Nina atiravam pedras às amendoeiras que ladeavam o Largo, tentando arrancar alguns frutos encarnadinhos, repasto dos pardais dos coqueiros vindos dos lados do Tanchon. Entretanto, o adro da Igreja via-se composto: havia cachos de bananas com os corações a baloiçar ao vento da embocadura da Estância-de-Baixo e muitos mastros floridos. Os talos das canas de açúcar da cor roxa e flores prateadas estavam cobertos de um pó branco e embandeiravam as arcadas da principal porta da Sé. Nhô Djonzinho e os seus familiares ouviram a missa, mesmo à entrada, junto à pia da água-benta, bem fincada na parede, apanhando os salpicos caídos dos dedos dos crentes, ao fazerem o sinal da cruz, pois quando chegaram a igreja estava apinhada até à porta. Sabina, muito compenetrada, rezava com fervor. Queria agradecer algo à Nossa Senhora de Fátima, mas vinha-lhe à mente a conversa tida com o seu homem, quando desciam a estrada do Lombinho, a caminho da Igreja.
Agradecer-Lhe o quê?! vociferava o seu homem, muito zangado especado numa encruzilhada do caminho, para retirar dos dedos alguns manégatinhos bem fincados na sola dos pés.
Os filhos iam brincando com as hastes secas das babosas, agora transformadas em espadas das histórias dos temidos corsários, que visitavam as ilhas séculos antes. Já com os picos retirados dos pés, prosseguiram a caminhada, olhando as hortas do Tanchon, da Ribeirinha e das Maiamas, outrora verdes, agora completamente secas.
Se, ao menos, a chuvada de há dias tivesse vindo uma semana mais cedo, Sabina, a ideia de embarcarmos para aquela Terra Longe de São Tomé não estaria a verrumar de novo na nossa cabeça!
Sabina dava-lhe toda a atenção possível.
Sim! Tens alguma razão, Nossenhor me perdoe...!
Mas nada tenho a agradecer-Lhe. Em casa só há restos dos ossos da cabrinha Ruça e o milho só vai durar para mais três cachupas mal medidas.
O fumo do incenso perfumava o ar da Igreja, subindo em espiral do altar-mor ao coro, onde jazia inerte um secular órgão, com os seus longos tubos de metal e de madeira, instrumento que eu nunca ouvira tocar. Muita gente antiga e papai falavam desse monumento à música, de mavioso som, ouvido da Estância às escarpadas montanhas do Cachaço. Agora, até os garotos brincavam com os restos dos tubos pelas ruas da Vila, servindo-se deles como vulgares apitos. Para Nhô Djonzinho um homem que nascera com a música no sangue e na alma o pai também era tocador metia-lhe dó só de olhar para o coro e saber que as peças raras de um órgão de inestimável valor histórico e artistístico para a ilha de São Nicolau estavam a ser delapidadas e ninguém ligava o facto.
Se, ao menos, houvesse uma Liga dos amigos de Ins-trumentos Musicais poder-se-ia salvar esse precioso órgão, que, de outra forma, mais cedo ou mais tarde, iria parar para fora da ilha, para alguma Catedral da Itália, segundo as más-línguas do povo...
Acabada a missa e o leilão das oferendas, cujas receitas revertiam a favor da Igreja, a família de Nhô Djonzinho seguiu Lombinho arriba, percorrendo a estrada agora enlameada pelas últimas chuvadas, em vez da habitual e penetrante poeira amarela dos dias anteriores. Ao chegarem aos tamarindeiros do fundo da Tabuga, fizeram uma paragem forçada para deixarem passar um enterro, que, por sinal, levava um modesto acompanhamento. Vinha do Caleijão, pelo caminho de cima. O defunto, hirto e de aspecto terroso, embrulhado num lençol que já fora branco, era transportado numa padiola de paus de carrapata e de canas de carriço, atados com cordas, levada aos ombros dos amigos e conhecidos.
Mais um, coitado! dizia Nhô Djonzinho! Se não saírmos desta terra, com a fome que anda a dar por aí, qualquer dia sou eu, tu ou um dos meninos a seguir este caminho sem retorno, o do cemitério da Tabuga!
Homem desmaquenado, vira para lá essa boca preta!
Sabina benzera-se com a mão direita, da testa ao peito, indo o polegar, gretado na apanha da lenha, parar aos lábios, em sinal de esconjuro.
Veja lá se tiras mas é esse barrete da cabeça! Não vês um morto a passar?
Passar não! A ser levado aos ombros pelos outros, queres tu dizer!
Este não é momento para brincadeiras, homem!
Após o cortejo fúnebre desaparecer na curva sinuosa e barrenta da estrada, o ancião repôs o barrete na cabeça e sentou-se à sombra de um tamarindeiro do caminho uma árvore de copa curvada na direcção dos muros do cemitério da Tabuga. O Toni e a Nina subiram para os ramos mais baixos e colheram algumas vagens maduras, tragadas uma a uma; até atiravam as sementes pretas para o ar, ”para ver quem tinha mais força”.
Nunca mais chega um outro parente nosso das améri-cas, como o Jack, para me dar um boné novo? dizia Nhô Djonzinho!
Nhô Jack viera de visita havia anos e trouxe uma arca cheia de prendas para todos os familiares vivos, claro está! Triste desilusão quando constatou que o parente mais próximo era apenas e só Nhô Djonzinho por sinal, o familiar mais afastado. Foi assim que o barrete, agora velho e sebento, veio parar às suas mãos.
Sabina foi acrescentando:
Esse Jack ficou por pouco tempo nas terras do Norte da ilha. Sentira-se só, abandonado e desconhecido na sua própria terra de São Nicolau. Os amigos de ontem tinham morrido todos. Só via gente nova e desconhecida. Um dia, encavalitou-se numa alimária emprestada por um comerciante e passou pelo Recanto, local onde nascera, brincara e crescera. Da casa dos papais só restavam as ruínas com chaluteiras lá dentro e alguns pés de algodoeiro, espreitando pelos buracos das janelas. Apeou-se, amarrou a mula a um tamarindeiro do quintal, árvore que desafiara todas as secas, e encostou-se na empena das ruinas da casa e, comovido, chorou que nem uma criança!
Bezerro desmamado acrescentou Nhô Djonzinho!
Conforme contara a Bia de Zepa, que apanhava lenha por aquelas bandas, ela viu o visitante carpindo as suas mágoas em voz alta, com vergonha, pois homem velho não chora daquela maneira. Assim falava:
Era alí (apontava com os dedos), o quarto dos papais... A sala de jantar e o local onde mamãe fazia as suas costuras estavam tomados pelas grossas raízes salientes do velho e persistente tamarindeiro de tronco retorcido pelo vento. Papai escrevia e lia naquele canto, agora invadido pelos pés de algodoeiros floridos de amarelo vivo. Aqui, neste sítio, papai tecia as rédeas de couro para as nossas alimárias e para a Ginete, a sua égua branca de estimação. Mamãe assistia alí ao desmanchar dos porcos nos dias da matança e os meninos, meus colegas da escola do Recanto, ficavam naquele muro de pedras ensossas, à espera da bexiga do animal para fazerem uma bola de jogar... Belos tempos...Uma mocidade que já lá vai...
Pára de falar sózinha, Sabina!
Não vês que estava a contar a ti e aos meninos a história do Jack, o americano, teu parente muito longe!
Um negro corvo veio pousar numa das empenas da casa em ruínas, no silêncio do Recanto. Sabina ainda ouvia o Jack a falar sózinho, naquele descampado, pregando às poeiras dos tempos, qual Padre António Vieira aos peixes, relembrando-se de um passado já longínquo, em ruínas.O velhote assim cismava, naquele descampado:
Todos os anos, mamãe e papai faziam a comida dos anjos comida para as crianças mais pobres dos arredores. Havia um bom molho de capado e rolão. Belos tempos!
A mula do americano, impaciente de tanto esperar, ouvindo o vento uivando sinistramente nos morros escalavrados e sem um fio de palha para comer, fez tilintar os ferros da corrente da barbeleira cromada, acordando o Jack para as duras realidades da vida já vivida...
Enfim, tristezas! exclamara. Quando chegar a Boston irei fundar uma Associação para angariar fundos e roupas para mandar para toda essa gente que anda a passar muito mal nesta desgraçada terra de Cabo Verde...
Saltou para a sela encavalitada no lombo da montada, sacudiu o pó do chapéu de panamá branco, acendeu um charuto havano, enxugou os olhos a um lenço branco bordado a ponto-cruz e tomou a direitura da Estância, para aí marcar a viagem de regresso a Boston e trocar alguns dólares na Casa Maximiano, Agência do BNU. Chegado ao Largo do Terreiro, sentou-se no banco de madeira, chamado o dos engravatados, ficando a observar, com espanto nos olhos, os preparativos para uma boda das grandes, pelo número de acompanhantes e de alimárias amarradas na ribeira, na Passagem e junto ao Matadouro Municipal.
Nhô Djonzinho, após uma breve paragem para descansar num fundo onde corria um fio de água uma nascente dos pardais pôs-se a caminho do seu casebre no Norte, repisando a lama avermelhada e, acidentalmente, algumas bostas frescas que as vacas iam espalhando pelos carreiros. Na sua cabeça, a eterna questão! “E quando o milho acabar?”E... E...
Bem! Ainda tenho mais duas portas de mogno para vender ao Mano Tau ou a algum comerciante necessitado de madeira. O Mano, da outra vez, disse-me já não ter onde guardar tantas tábuas de portas que chegam à sua oficina. Os comerciantes também não dão muita importância à qualidade das madeiras. Para eles, pinho ou o mogno é a mesma coisa: para os caixões qualquer coisa serve. E depois de eu vender a última porta do meu casebre?
Conversava com a Sabina, recordando-se da época em que fizeram a casa naquele alto, virado para o mar de que tanto gostam.
As tábuas eram trazidas das praias, sobras que os vapo-res deitavam fora e vinham dar à costa. Com a madeira, subia pelos caminhos de cabras, contente e assobiando ao vento uma morna. Decorria a segunda guerra, nos anos quarenta e tais...Afinal, Sabina, passados tantos anos, o que vemos? Diga-me lá, se souberes! Desenganos, desilusões! Ainda sinto o cheiro da resina fresca, quando eu metia a serra nas tábuas, mesmo depois delas andarem a boiar no mar um ror de tempo. Amanhã, com um pé de cabra, vou desmanchar a última porta da casa e levá-la para vender na Estância. O buraco ficará tapado com uma esteira de canas de carriço...
Mas, homem, assim, pelo buraco entra a friagem da noite vinda do mar, incomodando os meninos, a dormirem nesse chão de terra batida!
Paciência, mulher, já nada mais temos para vender, não achas? Nem o teu fio de ouro aquele que a tua mãe te deixou ao morrer, com a indicação ”de o não venderes”, lembras-te...
Da casa, que Nhô Djonzinho construíra com amor e tenacidade e onde nasceram os dois filhos, só restavam as paredes de pedra e barro, uma cobertura de palha de soca apodrecida, um catre para ele e a mulher e uma cortina de pano descolorido já comido pelas baratas e traças. Na cozinha, uma panela de ferro que não via a cachupa, dias-há. A um canto, uma tigela estalada de barro da Boa Vista de bordas lascadas, onde torravam o milho e um pote remendado a cimento. Todo o recheio do casebre já fora vendido na Estância e o dinheiro empregue na compra da comida. Era essa a situação, quando aquela família resolvera confirmar os nomes, como contratados para as roças de São Tomé.
CAPÍTULO 7
A filha Nina, devido ao sol apanhado numa das caminhadas à Estância, ficara com febre e dores no corpo, para o desespero dos pais. Dizia Nhô Djonzinho:
Depois de valente coice, vem a pancada – lá diz o povo! Friezas que ela apanhou no quintal brincando à chuva, ou fatais picadas dos mosquitos do paludismo, nascidos nas poças das hortas como gafanhotos.
Na localidade não havia Posto de Socorros e doutor ou enfermeiro só na Estância. A família pôs-se a caminho do povoado, levando a filha doente numa cadeira de balanço, bem embrulhada numa manta menos rota a única da casa. A Sabina transportara à cabeça mais um feixe de lenha para vender na padaria de Armado Fonseca e Nhô Djonzinho, ajudado pelos vizinhos, lá levara a Nina, à pressa. Após atravessarem os despidos Campos do Norte já com o suor a escorrer-lhes pelas faces sujas da terra amarelada, vendo a poeira subir em redemoínhos medonhos “o Diabo disfarçado de pó” no dizer de um acompanhante, chegaram à Enfermaria Regional da Vila da Ribeira Brava, um edifício caiado a ocre amarelo, mesmo à entrada da urbe. O velho relógio da Sé batia as doze badaladas do meio-dia. As salas da Enfermaria estavam apinhadas de enfermos, vindos de todos os recantos da ilha. Era o paludismo, aproveitando-se da fraqueza daquela gente para se instalar nos debilitados corpos, ceifando vidas. Ao fundo da varanda, mais precisamente, do lado virado para a Prainha, funcionava a Farmácia do Estado a única na ilha onde o enfermeiro Luís preparava as cápsulas de amido com a quinina em pó um medicamento usado para debelar as febres de palustre. Quando tomado a tempo, evitava-se a fatal biliosas, que matava em poucas horas. O enfermeiro era um homem simpático, baixo, atarracado mesmo, tez escura e brilhante, cabelos esbranquiçados pela idade, muito sorridente e sempre com uma palavra para confortar os doentes. Às crianças oferecia-lhes as caixas de medicamentos já vazias, as serrinhas de aço com que cortava as ampolas, após as injecções de penicilina medicamento milagroso e descoberta recente. Atrás de um balcão de madeira escura da Guiné, via-se o enfermeiro Luís manuseando as espátulas de aço inox, destapando os frascos de vidro escuro com os milagrosos pós, ou aviando as receitas, espalhadas sobre uma secretária atafulhada de papéis. Quando faltavam as cápsulas de amido, até as finas folhas de papel de mortalha para os cigarros serviam de invólucros para a amarga quinina. O pó, na verdade, era bem amargoso. Ao largo fonteiro à Enfermaria, chegavam com frequência mais doentes, trazidos do interior da ilha em cadeiras de balanço ou em padiolas de paus. Alguns já vinham moribundos. As montadas enchiam o largo do local, relinchando de inquietação. A Nina a filha de estimação de Nhô Djonzinho ficara numa cama que vagara na noite anterior. A ocupante falecera de febres e já ia a caminho do cemitério da Tabuga, num caixão do povo (dos que a Câmara emprestava às famílias necessitadas) e que, findo o enterro, voltavam à Casa das Tumbas, mesmo por debaixo da Sé. Uma outra doente gemia numa cama de ferro, pintada de um branco sujo e estalado, oferta de uma Associação de cabo-verdianos residentes na América, aquando da inauguração do Hospital, no ano de 1946. Através da janela da Enfermaria das mulheres, onde a Nina se encontrava, via-se a horta de Nhô Jaime Neves, com algumas bananeiras ainda verdejantes e os altos coqueiros da propriedade do Tanchon, oscilando preguiçosamente ao sabor do vento da embocadura da ribeira. O enfermeiro Luís diagnosticara à Nina uma fatal biliosa. Falando abertamente ao pai, dormitando a um canto da varanda embrulhado numa manta, desenganara-o quanto à sorte da filha... A Sabina ficara a noite inteira junto à cama da filha. Os outros doentes, deitados onde havia espaço, gemiam ou olhavam para o tecto forrado com chapas de lusalite caiadas de branco, aguardando a hora da mo
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